009 Malta

Ao acordar, um dia escuro e fusco, com nuvens que pesavam de um céu confuso e aturdido. O vento soprava forte do oeste. No convés brinquei de equilibrista eólico: os pés fixos ao chão, ia deixando o tronco inclinar para frente a fim de que o vento, contrário, me recompusesse ereto, em um automatismo de forças da física. Ao tomar consciência da possibilidade do ridículo do meu jogo, olhei ao redor: da escada, descendo do tombadilho, a mulher do Industão me observava. Atrás vinha-lhe justamente o saxão, brutal e fulvo; e divertia-se em espetar-lhe um dedo às ilhargas!

Na véspera não notara que privavam dessa comunhão e intimidade. Eram casados, me confirmou outro inglês, típico burguês da City, homenzinho inquieto e loquaz, com quem conversei no bar enquanto debicávamos brandy and soda. Com a informação, o centauro inglês pareceu ainda mais odioso, desencadeando-me no cérebro quente imagens de raiva. Era a anglofobia: inveja e desejo de rebique que se agitam sempre no peito lusitano. Lembrei dos filmes de Mel Gibson e inspirei profundamente. Era plausível explicar a solidão suspirante da mulher no convés, na noite anterior, por uma repulsa ao bárbaro inglês. Cogitei para eles um matrimônio de artifícios e unilateralidades. Imaginei-a oprimida e intoxicada por aquela densa pelagem ruiva. Concluí esta derivação de pensamentos sensatos e razoáveis com um delírio, no entanto ainda mais convincente do que eles: minotaurizar o centauro. Punir nele, de modo vicário, os agravos à Pátria: os territórios roubados à mão pelintra, os saques piratas, os tratados humilhantes, e, de pura generosidade ou capricho com amigos simpáticos, ainda saciar Napoleão por Trafalgar, pelos Wellingtons e Nelsons, e a Espanha pela sua pontinha de Gibraltar tomada como se decepa o dedo mínimo a um pianista.

Adiante se insinuavam contra o horizonte montanhas rosadas, não sei se da Sardenha ou da Sicília. Seja como for, um ar de vendetta ventou nas minha narinas: minotaurizar o centauro.

007 Malta

No Delly, paquete da Índia, deixamos Gibraltar, o seu severo e brutal cerro assombrando as nossas nucas com tiros imaginários de canhão. The Rock, os ingleses o chamam, e talvez ele seja metonímia exata da estirpe e do gênio daquele povo insular. Castlereagh, no Congresso de Viena, descreveu a idéia da Santa Aliança como “a piece of sublime mysticism and nonsense” sugerindo o horror ao abstrato e ao puramente especulativo compartilhado pelos filósofos empiristas de sua raça, que cultuavam e buscavam “the rocky bottom base of knowledge”. Enquanto isso, Napoleão imprecava, do seu exílio em Elba, contra “a maldita nação de mercadores”. E assim temos, no conjunto das opiniões dos próprios nativos e na de detratores estrangeiros, uma impressão equilibrada do que seja o inglês e seu espírito, o Morro de Gibraltar mais propício como símbolo e representação do que toda a heráldica oficial.

No paquete a viagem é monótona: senhoras filantrópicas querendo civilizar os indiozinhos e fundar escolas no distrito de Calcutá; moças com nuvens d´ouro sob os chapéus de palha, corretas, jovens esposas de capitães da Índia, com passinhos ágeis de mulheres atarefadas; homens praticando um ar enfastiado, fumando impassíveis no convés, uns em espreguiçadeiras lendo jornais ou livros sobre os costumes dos povos bárbaros, outros em pé, olhando o horizonte, provavelmente pensando nas tarefas e ocupações que lhes aguardam ao final da viagem. Durante a noite, da proa, admirei por tédio a simetria com que o avanço da embarcação repartia as águas, formando duas linhas rápidas, luminescentes de luar.