001 Cadiz

Dobramos o cabo de S. Vicente sob um luar digno daquele que fez rebrilhar a adaga de Macbeth na noite do assassínio. O mar infindável, sereno, sem trevas, mas belamente escuro, tremia sob o grande raio luminoso da lua como os antigos animais sob as carícias dos profetas.

“Como os antigos animais sob as carícias dos profetas”. Alguns dias depois, no Delly, paquete da Índia, pensaria nesse mesmo símile enquanto uma inglesa nascida no Industão ria ao contato do meu fero bigode português.

À direita do vapor, negro, de perfil, erguia-se o Cabo, de linhas precisas e nítidas, e a decoração admirável da noite assentava silenciosamente em redor.

Ao outro dia, no termo do mar azul-cerúleo, aparecia, recortando no profundo céu as suas linhas retas, fresca e branca, Cadiz.