010 Malta

Aprofundando, estratégico, o contato com o inglesinho da City, John Hallister, pude consumir mais notícias sobre o casal objeto da minha lubricidade ardilosa. O centauro ruivo lhe era um tradicional desafeto de profissão. Enquanto regalávamo-nos de whisky and soda e charutadas no dinner saloon do paquete, meu novo amigo rompeu-se em animosidades contra o barbaças bretão. Cuidando em separar, do fantástico proveniente de um animus nocendi exacerbado pelo whisky, a parte objetiva de sua loquacidade, cheguei ao seguinte quadro, que, apesar das minhas atenções, não é inteiramente confiável, afinal, a mentira e a verdade não se decantam como água e óleo — no que, aliás, reside o sabor agridoce da vida, e a moral conturbada do mundo.

O rubicundo saxão tinha um nome, “Hamilton-Hamilton”, que lhe conferia ar ainda mais bestial e pagão. Para perceber isto basta considerar imaginosamente que cada “Hamilton” responde por uma de suas partes de centauro (e que em breve assinalaria também, findo o processo de minotaurização, a imponência de duas bingas). H-H, se ordinariamente era um pândego e um licencioso, ao portar o fato de alfandegário da Rainha ficava possesso de moralidade inconsútil e inexpugnável, estorvando assim as tramas de Johnny, comerciante astuto e sempre desejoso de saltear impostos e outras obrigações onerosas.

Admito que Hamilton-Hamilton, no retrato que ia delineando seu adversário e patrício, surgia para mim cada vez mais com simpatia e fraternidade. Era um tipo variegado, de profundezas e alturas comoventes, por quem fatalmente iria me afeiçoar e estimar não estivesse, apenas pelo acaso da prioridade, determinado a rivalizá-lo com toda a vivacidade da monomania já definitivamente atarrachada em mim, pelo diabo mesmo, como uma nova mão protética, de uma vileza autônoma e muito além do meu controle. Creio que o próprio Hamilton por vezes se sentia assim, ao alternar de um para outro Hamilton, dos tantos que lhe compunham o psiquismo vibrátil, volátil e versátil. E isto dava ainda mais motivações para me ver nele e querer abraçá-lo. Felizmente era eu mesmo também este serzinho contraditório: paroxítono como os adjetivos que negritei para ele. Portanto foi fácil sufocar o amor que começava a sentir por este irmão, compagnon de route, geográfica e espiritual.

Mas me enterneci ao descobrir o seu lado tolo, inocente e indefeso (como eu mesmo tenho o meu), que se manifestava em ocasiões de atropelos e fulgurações românticas. Como quando conheceu Sabitri, sim, o nome dela, da inglesa do Industão.

008 Malta

No dia seguinte distraíram-me algumas personalidades a bordo do Delly. Logo fez-se notar um oficial da Índia em cujo rosto a barba aderia como uma grossa camada de ferrugem, o que, ajuntado ao queixo projetado e arrogante e ao olhar de voracidade bárbara, lhe fornecia os aspectos do saxão antigo. Tomava cerveja com um gesticulário operístico: em goladas contínuas, largando em seguida, com um estampido, o canecão sobre a mesa. Seus movimentos eram rápidos e brutos, ainda que precisos, as passadas firmes, de marinheiro; a voz, poderosa e altissonante, própria de quem comanda, a despeito de, ao palestrar com a sociedade a bordo, ser quase doce nas suas expansões. Tinha, enfim, esse diagnóstico de quimera, uma força centáurica e uma energia primitiva que a vida moderna conteve e disciplinou.

Uma inglesa nascida no Industão era ainda mais estranha. Naquele ambiente de senhoras anglicanas sua presença imprevista agredia o olhar. Buscar os seus olhos por detrás do véu claro que ostentava era um pouco como adivinhar, através de musharabias, os movimentos de uma orgia celebrada em quarto iluminado. Era alta e misteriosa como um ídolo. Seus braços nus, o decote que a mantilha mal escondia e os lábios grossos e sensuais compunham com o uso do véu um paradoxo que me fazia doer o cérebro.

De noite, quando estava na minha posição usual de insone, fumando à proa, pude vê-la pela segunda vez. Apareceu de repente, em um ponto mais central do convés: aproximando-se da amurada com passos lentos, ficou então a olhar para o mar, enquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam de vento e lhe davam uma aparência ondeada e balançada, que a assemelhava àquelas divindades que os escultores antigos enroscavam nos flancos dos galeões.