002 Cadiz

Uma parte de Cadiz é branca, nova e retilínea: parece ter sofrido, como Paris, processo de hausmannização, no qual, para o favorecimento do comércio e da positividade, troca-se, pela comodidade material, a sensualidade dispersa. Acrescente-se a isso a pompa enfática do gênio espanhol. São ruas que se estendem ao ponto de fuga do horizonte, entre casas brancas, límpidas, recortadas por janelas longilíneas e balcões envidraçados. Ao alto, nus e brilhantes, sem arquitetura, abertos para o grande céu, espraiam-se terraços.

Cadiz aproveitou para suas construções modernas tudo quanto da antiga arquitetura mourisca ou árabe é uma necessidade higiênica ou climatérica: os balcões avançando, oferecidos, para a rua, o mármore, o tijolo e uma certa nudez de ornatos, de móveis e de estofos. Cedendo ao novo ascetismo, que é a frugalidade prática e objetiva do homem hodierno, eliminou tudo o que vai além da eficiência: a graça, a phantasia e o pitoresco da arquitetura árabe. As grades esculpidas, rendilhadas, feéricas, as colunatas delgadas, a forma das janelas esbeltas — tudo isso foi esquecido.

Mas houve ainda no engenho deste Haussmann oriental responsável pela reconstrução, o cuidado de burocrata (que quer parecer saudoso e sensível) em separar da nova urbe a velha. Esta foi preservada do desadoro reformista como o marido que, com muito esforço e apenas parcialmente, contém seus apetites, para que não se espantem mundo afora, além dos limites de decoro do matrimônio. Assim, na Cadiz Velha, temos os ornatos e monumentos mouriscos; e as ruas tortuosas que parecem enrodilhar-se sobre si mesmas, estreitas, nas quais, as seguindo, ora nos surpreendem com o fim de um beco, ora se espargem em praças ajardinadas, de camélias, cedros-do-mato, louros e uvas-da-serra.