AVISO DESNECESSÁRIO E RITUAL ESCUSATÓRIO

Já que não tenho me entendido muito bem com o outro projeto, que não sei como continuar, e que talvez, se conseguir levá-lo adiante, seja transferido para a discrição confortável e offline do editor de textos, no caso, o Lyx, retomo o exercício de escrever sobre a morte. Antes ainda repito aqui a modéstia irônica, acho que do Antero de Quental, de dizer que não espera dos leitores elogios, mas só a sua misericórdia. Mas não a do Padre Vieira, que, no início dos seus sermões, dizia não esperar e pedir a atenção dos ouvintes, mas só a sua paciência. Eu nem isso peço.

Entretanto, a situação é ainda mais grave. Como ando pouco sistemático e a atenção, inquieta, sempre escapa para objetos diferentes daquele em que desejaria concentrá-la, vou dispersar nos próximos posts umas notas vagas com comentários velozes sobre citações recolhidas a respeito do suicídio, um tema que, quem sabe, com a ajuda de fármacons para TDA e outros transtornos, atacarei de maneira mais consistente em um texto com princípio, meio e fim, ainda que não necessariamente nessa ordem. E espero que tenham lido isto com a mesma suspeita com que o escrevi.

É tudo um pouco como aquele diálogo que não está no Hamleto:

– Você está com dúvidas, né?

– Talvez…

– Tenho certeza que você está…

– Não sei!!

009 Carta de Oliveira Martins a Eça de Queiroz sobre o Suicídio de Antero de Quental

Meu caro José Maria,

muito obrigado pela tua pergunta telegráfica. O nosso Antero cedeu por fim à tentação constitucional da sua vida. Morrer, era-lhe uma obsessão. Matou-o principalmente o clima enervante de São Miguel que estonteia os mais fleugmáticos. No meio dessa aflição consola-me sequer a idéia de que não morreu vítima de nenhuma dificuldade maior: nem dinheiro, nem doença, nem mulher. Nada. Matou-o a sua imaginação exacerbada pelo capacete de ozote da ilha. Era uma tentação antiga: duas vezes o desarmei, e uma no instante em que se ia matar. E então havia um motivo mulher. O nosso pobre Antero não tinha a filosofia bastante para perceber que da vida nem vale a pena nos desfazermos.

Era um alucinado da metafísica e provavelmente acabou julgando viver num mundo melhor. Acabou-se. Adeus.

Abraço-te, meu José Maria, abraço-te nele,

Oliveira Martins.