CABRITINHA DOCE EM UM ESPETO DE CEREJEIRA

Muito triste ver Anna Karina em Pierrot Le fou e depois encontrá-la de novo, envelhecida, nos extras do dvd em uma entrevista atual, em que ela faz um memorialismo das filmagens. Diz que, então, era parecida com sua personagem no filme: “Eu era mesmo essa menina feliz e inconsequente, que gostava de correr aos pulinhos e cantar”. E acrescento: uma cabritinha vaporosa e doce, uma fadinha ou sílfide inquieta, que o espectador sente ganas de colocar num espeto de cerejeira, assar e mastigar com uma fome primitiva e alegre.

Daí o adágio: “Toda mulher linda é mãe de uma bruxa.”

MONÓLOGO COM CARMEN (SÃO PAULO S. A.)

[18:20:56] carmen says:fox!!!!
[18:30:21] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
oi carmencita!!!
[18:30:50] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
que bom que ce apareceu e interrompeu o meu filme, que eu tava gostando muito, mas, olha só: gosto mais ainda de você!
[18:31:04] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
putz, offline. maldito filme.
[18:32:09] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
eu tava vendo São Paulo Sociedade Anônima. Eram 30 minutos e 11 segundos de filme quando escrevi “Oi carmencita!!!”.
[18:33:26] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
eu tinha dado um pause só porque senti necessidade de escrever em algum lugar essa frase ouvida durante: “Hilda está morta. E eu nem pude dizer nada para ela.”
[18:33:54] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
Frase, apesar de sobre uma mulher morta, banal, mas no filme ela ficou linda.

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Na praia de Ipanema, a top brinca com um dos seus três filhos, o fofissimo Victor de um ano

Na praia de Ipanema, a top brinca com um dos seus três filhos, o fofíssimo Victor de um ano

Hilda é, como todas as mulheres que prestam no mundo, bergmaniana. Eu já falei em algum lugar que para fazer uma metafísica você tem que usar o método metonímico ou mereológico. Porque, se você quer explicar tudo e dar um sentido geral às coisas, não pode fazer como o turista, que ao invés de se guiar em Paris pelo mapa da cidade, preferiu a própria cidade, por ser, segundo ele, mais real e precisa do que qualquer cartografia. No caso da metafísica o mapa tem que ser um pedaço da realidade bem especial, um que, na sua parcialidade e abstração, consiga repercutir todo o resto. O Bergman escolheu a mulher, e escolheu muito bem. Outros escolheram outras coisas. É possível: a realidade, por sorte, possui essa propriedade de dispersão especular que faz com que as mais diversas coisas possam refleti-la e resumi-la. Por exemplo, o fantástico Jean Henri Fabre, entomologista, escolheu para a sua metafísica as lagartas processionárias. Mas voltemos para as mulheres: o desgraçado que entende a mulher nos golfões mais abscônditos daquela radiografia complicadíssima, cheia de bifurcações, em cada esquina um teratoma úmido e hipnótico, tem toda a ciência de que o mundo precisaria, se ele precisasse de tanta ciência assim.

Mas a Hilda está morta e nem tivemos tempo de entendê-la. Ela gostava de cheirar lança-perfume nos bailes de carnaval do Brasil kubitschekiano, tinha amantes de todos os tipos (um deles, Carlos, o protagonista do filme, engenheiro da Volkswagen) e fazia comentários espertos sobre Segall e Picasso andando distraída pelo MASP. Em uma cena, brincando na praia de Guarujá com o Carlos, de repente pára de sorrir, faz o sinal da cruz, há um corte para o rosto perplexo do namoradinho que, engenheiro da Volkswagen, jamais a entenderia mesmo, e depois voltamos para Hilda, que refaz o sorriso e a disposição alegre tão rapida e inexplicamente como antes tinha perdido. Aproveito para dizer que os homens somos todos rasos, como se fossemos todos engenheiros, desenhistas industriais da Volks, da Ford ou da Fiat. As mulheres, não, todas medusóides, mesmo as mais bonitas como Hilda, Anna Karina e Natalia Vodianova, principalmente a Natalia, que até ontem estava aqui no Rio com o marido careca e seus três filhos lindos (v. foto). As mulheres são profundas, e são capazes de momentos como o da Hilda na praia do Guarujá, quando parece que vemos passar sobre seus olhos a sombra da asa de morcego invisível, anjo mal ou outro ser diabólico. Então elas se benzem e voltam a correr e a sorrir. Os homens, atônitos, olhamos para as pegadas de Maldade e Mistério que deixam na areia.

As belas omoplatas de Hilda e, no segundo plano, Carlos, o engenheiro, abre as cortinas da janela que dá para a praia do Guarujá. O apartamento pertence a um outro amante de Hilda, naquele momento em viagem de negócios nos EUA. Carlos usa o seu pijama.

As belas omoplatas de Hilda e, no segundo plano, Carlos, o engenheiro, acabou de abrir as cortinas da janela que dá para a praia do Guarujá. O apartamento pertence a um outro amante de Hilda, naquele momento em viagem de negócios nos EUA. Carlos usa o seu pijama.