Bitzbutz by Gil Alkabetz (Israel, 1984)


Ou: Meu Cérebro, Mais Abrangente, Mais Rápido do que o Seu
Aquela detestável tendência que a gente tem em se mostrar sempre autoconsciente a respeito de tudo. Ela na verdade vem de uma preocupação com os outros, para que não pensem que a gente não perdeu a sanidade, ou que o ridículo que se pratica é deliberado, ou antecipar objeções para mostrar que os críticos chegaram tarde, retardados que são.
Enfim, é por isso que agora abro aspas para aquela parte de mim que cede à tendência:
Sei que o blog está carnavalesco demais. Sempre detestei design com mais de duas colunas. A página fica com informação demais. Os posts, que deveriam ser o mais interessante, ficam discretíssimos, esmagados entre as colunas extremas, uma com vídeos, outra com rss feeds. Para confirmar a idéia de que vício e virtude são duas maneiras de ver a mesma coisa, o bom é que os posts ficam discretíssimos, o que provavelmente revela uma timidez elegante com relação ao que escrevo.
Muito justo que as mulheres gritem em motel. Afinal é para isso que os homens pagam. Às vezes só o motel, muitas, não só. Mas essa vizinha de hoje está gritando como uma mãe italiana que acabou de ver o filho de cinco anos recebendo um tiro na cabeça, os miolinhos do garoto sujando a sua camisola branca. Até parei de fazer o que estava fazendo para ouvi-la.
Sobre o tal filme havia escrito que:
Sem excessos retóricos, o filme solta você novamente para o mundo com o olhar meio vago, indolente, idiota mesmo, achando tudo um pouco diáfano, quando em realidade é você que está, e não o mundo, e você confunde seu corpo com a própria sombra, julga possível infiltrar-se na matéria, atravessar portas de vestiários femininos.
Uma outra pessoa assim descreve a sua reação:
I had the same reaction. I actually stopped breathing and put my hand to my mouth. I drifted into peripheral vision and my entire body flooded with adrenalin. I was shaking for about ten minutes after the end, I barely knew where I was.
Que exagero, né?
Tempos muito difíceis estes. A ansiedade vibra em cada célula, e faz com que elas lhe correspondam. Quer ver? Sustente a mão aberta em frente a seus olhos e verá que não domina o seu polegar, que treme contra a sua vontade. Você é como uma animação rotoscópica, aquela dos filmes A Scanner Darkly e Waking Life. Ou então é mesmo o Temor e Tremor do Dinamarquês.
Ah, vi um filme! Não interessa qual, porque, se disser o título, o que escreverei em seguida valerá um spoiler, e o tal filme não merece isso. O jeito é torcer para que você um dia, por acaso, o veja. Então já terá esquecido do que leu aqui.
Ah, vi um filme! A primeira linha da sinopse seria assim: [personagem] enlouquece de tanto estudar Kierkegaard. Achei bonito e verdadeiro. K. é mesmo enlouquecedor se a gente o estuda com a devida obsessão. Mas ainda estou longe disso.
- Mais perto do que deveria…
Quem disse isso?! Bom [pigarro], no final, depois de ter passado uns dias sumido, fora de cena, e com os familiares já o dando como morto, reaparece. E ressuscita a cunhada, que, parturiente, morrera pouco antes de ele fugir de casa e fazer o Völkerwanderunguizinho particular pelas vizinhanças. Só usei “Völkerwanderung” plus diminutivo porque ele é assim, mezzo transcendente, meio histórico, quer dizer, totalmente bíblico, um daqueles líderes que, quando migram, mesmo quando só passeiam, levam como cauda toda uma raça fantasmal. Seria ele ainda 1/3 ridicule et grotesque, se a matemática permitisse.
Queria fazer um estudo a respeito do seguinte tema: de como um feelme com este resumo
Estudante de teologia enlouquece de tanto estudar Kierkegaard, se julga a Segunda Vinda e, no final, ressuscita a cunhada.
pode ser excelente. Sem excessos retóricos, o filme solta você novamente para o mundo com o olhar meio vago, indolente, idiota mesmo, achando tudo um pouco diáfano, quando em realidade é você que está, e não o mundo, e você confunde seu corpo com a própria sombra, julga possível infiltrar-se na matéria, atravessar portas de vestiários femininos.
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Outra coisa:
Gosto quando a cunhadinha, ao ressuscitar, ainda no caixão, beija o rosto (o rosto, porque o filme é avoengão) do marido, com a boca aberta e numa expressão de grande volúpia. Ora, é assim mesmo que voltam os ressurrectos! Lembro do pudor realista de certos pintores renascentistas que
bom, na verdade eles, antes de realistas, eram “anjos com falo” (para seguir um eufemismo medieval).
que escolheram retratar a ressurreição de Cristo com este portando uma carnalíssima ereção. Afinal, é a ressurreição do corpo, não é? (Depois eu acho essa imagem.)
militrissa sobre colocar funk em shakespeare: “preconceito do atual”, i.e., atualizar o classico quando, por ser classico, ele nao precisa ser atual.
militrissa Collingwood on what is (NOT) art: that which is aimed at producing certain states of mind in certain persons is not art but amusement.
militrissa Ela diz para ele: “Eu queria ter os seus cílios.”
militrissa gosto da expressão “equilíbrio de antagonismos”. acho que ela tem uma aplicação ubíqua, explica tudo tudinho. qualquer coisa.
militrissa Todas as mulheres interessantes sao bergmanianas .
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Por exemplo:
O Brasil é um equilíbrio de antagonismos.
A Inglaterra é um equilíbrio de antagonismos.
A mulher é um equilíbrio de antagonismos.
O homem também.
O casamento feliz equilibra seus antagonismos.
Mas o infeliz também.
Obviamente eu sou um equilíbrio de antagonismos.
Assim como você.
amigo pediu para escrever alguma coisa sobre bergman, o ingmar. queria fazer todo mundo entender que bergman eh quem mais entende de mulher no mundo da arte. oumelhor, nao no mundo da arte, no mundo, ponto. faz na sua filmografia a metafisica do feminino. assim: ninguem vai entender a realidade inteira por exaustão, particular por particular, atomo por atomo, entao o jeito eh usar a estrategia mereologica e chegar ao todo partindo do minimo. o minimo de bergman é a mulher. para entender o mundo basta entendê-la. claro que ninguem entende o mundo, mas se aproxima de.
… mas aí não apareceu tudo. E nem consegui postar do celular. Quer dizer, é uma droga e, portanto, não encorajo ninguem a ter um trequinho feito o twitter.
Ando muito burro, quase parado de tão burro. Vou citão entar, ok?
The successful man will see just so much more than his neighbours as they will be able to see too when it is shown them, but not enough to puzzle them.