Meu caro José Maria,
muito obrigado pela tua pergunta telegráfica. O nosso Antero cedeu por fim à tentação constitucional da sua vida. Morrer, era-lhe uma obsessão. Matou-o principalmente o clima enervante de São Miguel que estonteia os mais fleugmáticos. No meio dessa aflição consola-me sequer a idéia de que não morreu vítima de nenhuma dificuldade maior: nem dinheiro, nem doença, nem mulher. Nada. Matou-o a sua imaginação exacerbada pelo capacete de ozote da ilha. Era uma tentação antiga: duas vezes o desarmei, e uma no instante em que se ia matar. E então havia um motivo mulher. O nosso pobre Antero não tinha a filosofia bastante para perceber que da vida nem vale a pena nos desfazermos.
Era um alucinado da metafísica e provavelmente acabou julgando viver num mundo melhor. Acabou-se. Adeus.
Abraço-te, meu José Maria, abraço-te nele,
Oliveira Martins.
Sei lá, às vezes eu me sinto um Marco Polo de gabinete, Humboldt de internet, mas não era isso que eu queria dizer. Só que ver esse vídeo me deu uma felicidade estúpida, alegria primitiva de compartilhar o mundo com creathuras extraterrestres, de tão indiferentes e distantes da minha própria existência, a mais importante de todas as que se locomovem sobre a litosfera.