GOOD MORGUE

Kathy:
Good morgue,
Cosmo:
Good morgue!
Don:
We’ve fucked the whole night through,
Kathy:
Good morgue
Kathy, Don & Cosmo:
Good morgue to you.
Good morgue, good morgue!
Your head looks great on a plate!
Good morgue, good morgue to you.
Cosmo:
When the pipe organ began to play
The son was killin’ his dad with a shining blade.
Don:
Now the grim reaper’s on his way,
It’s too late to say good mornin’.

CHATO CHATO (E CHATO)

Acho que vou citar alguma coisa. Que tal isso?

I do not care for anything. I do not care to ride, for the exercise is too violent. I do not care to walk, walking is too strenous. I do not care to lie down, for I should either have to remain lying, and I do not care to do that, or I should have to get up again, and I do not care to do that either. Summa summarum: I do not care at all.

Quer dizer, o cara é um chato.

E “chato” é uma palavra que deu a volta semântica ao mundo. Chato primeiro foi achatado como uma panqueca. Chato depois virou os bichinhos da doença venérea, certamente porque eles são achatados. E depois chato virou chato, a pessoa insistente, reclamona, porque ela incomoda como chatos nas zonas pubianas. O chato, me dizem, é um inseto cosmopolita, exatamente como os chatos.

Lamento o arredondado e gravitacional e sinto falta do mundo chato, quando os chatos e loucos de então, atraídos por um magnetismo suicida em direção às bordas da panqueca, caminhavam autômatos rumo ao horizonte. E encontravam o final do mundo chato, o abismo; e aí era só cair. O mundo chato era legal.

NIHLO

Certa vez seu pai, a quem não amava por considerar prosaico e sem nenhum espírito, convidou-lhe para a missa dominical. Respondeu que só se fosse segunda-feira, mas segunda ele iria a em si menor de Bach. Em outra, o seu pai morreu e a mãe perguntou se iria ao enterro.

Quando papai estava doente, fiz a promessa de que só iria a um, e somente um, enterro. Como sempre gostei mais de você, mamãe, resolvi economizar.

A mãe também era simples demais e não tinha espírito. Mas, quando chegou a sua vez e a irmã lhe perguntou se iria, disse: “Prometi a papai que só iria a um enterro. Contei isso a mamãe e sugeri com certa ambiguidade que seria o dela. Agora sem nenhuma ambiguidade afirmo que o único será o meu próprio. Como sei que faço tudo para ser detestado, não espero nenhum amigo ou familiar e, desta forma, vou pagar cem mil a cada atriz de Malhação que segurar uma alça do meu caixão. Será o meu Baile da Morte Debutante.”

E assim conduzia a sua vida, sarcástico e cínico. Ganhou muito dinheiro especulando na bolsa e dizia só ter se dado ao trabalho de estudar o assunto porque, infelizmente, precisava de mulheres e estas de dinheiro. Até que um dia conheceu uma mulher por quem se apaixonou -

Brincadeira, nunca conheceu ninguém que lhe despertasse amor ou compaixão. O sujeito era cínico mesmo. E não era do tipo que recebia lições da vida, esta é que freqüentava os seus seminários, como poderia ter dito uma vez. O final verdadeiro é esse aqui:

Até que um dia, depois de ter ficado muito doente, já desenganado pelos médicos, a Vida apareceu em seus delírios febris. Disse que lhe daria uma segunda chance, caso prometesse dedicar o restante dos seus anos a aprender a amar. Respondeu-lhe que não, pois não tinha o hábito de crer em imagens que surgiam em sonhos e delírios, ainda que de vez em quando conversasse com elas. E então Nihlo

não morreu. Viveu ainda mais trinta e sete anos. Suas últimas palavras foram: “minhas últimas palavras são, dois pontos:”.

CLOACA MAXIMA

(Tenho saudades de Copacabana. Toda a parte livre de parêntesis deste texto foi escrita lá.)

Enquanto caminho olho para as luzes nas janelas dos prédios. De uma menorzinha a lâmpada se apaga. Banheiro, penso, alguém acabou de fazer algo no banheiro. Irrefletidamente olho para a calçada e imagino o que passa sob os meus pés. Esgoto, civilização é esgoto.

(Lamento pelos que têm controle total sobre o que pensam. Existem realmente pessoas assim? Já me acho bom apenas por dominar, em parte, o que digo ou o que faço. As associações de idéias acontecem comigo e deixo que aconteçam. Quando tenho tempo dou dois passos atrás e observo: lindas pareidolias.

“A quem pertenciam os droppings fecais que passam a alguns metros e invisíveis sob os meus pés?” Existem mesmo pessoas que só pensam coisas úteis?)

Somos feitos assim: precisamos de comida, portanto, de um aparelho digestivo, ergo, também de um excretor. Olho para a minha barriga, imagino os meus rins, bexiga e uretra como uma ilustração de livro de medicina. A engenharia é filha da anatomia: a Cloaca Maxima, primeiro esgoto de Roma, obra da gestão de Tarquínio Prisco, que também deve ter mandado construir vários templos, afinal, ele, assim como os outros romanos e eu mesmo no século vinte e um, ele sabia: um dia esses rins vão parar de funcionar. A religião é o medo da falência dos órgãos.

(Ninguém precisaria de religião se não precisasse dos órgãos, ninguém precisaria de religião se tivesse aquilo que a religião postula: alma. Porque temos órgãos e não alma é que precisamos negar uns e afirmar loucamente a outra. Sou um homem extremamente religioso.)

Imagino-me com setenta e cinco anos a caminhar por uma copacabana de ficção científica. Não tão científica assim, tenho que admitir, pois carrego sob a roupa um daqueles saquinhos, esgoto íntimo, esgoto portátil.

Ah, meu aparelho excretor, meu aparelho excretor!

(É, terminava assim, com exclamação e cheio de pathos. No dia achei que ficava engraçadinho encerrar com essas expansões de colostomizado. Cheguei a imaginar o velho, bem velho, declamando a litania do aparelho excretor. Ao mesmo tempo lançaria droppings retirados da algibeira cirúrgica aos pombos da praça. Só não escrevi. Seria durante a noite. Ao amanhecer, cadáveres de pombos, dezenas, na praça. Devo ter desistido de escrever por causa de pudor realista: não sabia e ainda não sei se existem pombos notívagos.)

FAKING ANGST

- O Life, where is thy meaning?

- Take your question mark and turn it upside down. See? Its a J, a Jesus jay. Or a scythe with which you can grimreap your head off. The choice is yours.

- ???????

SVENSK FILMINDUSTRI PRESENTERAR

R & L
a two lines monologue for two voices

R: One must play more and not think of anything!

L: One must pray more and not think of anything!

SOBRE AS PESSOAS NO MOMENTO CRUCIAL DA MAÇANETA

Os filmes bons são aqueles cujos personagens avançam decididos para a porta. Abrem, há um rangido casual e ficam, cabisbaixos, imobilizados com a mão na maçaneta de acrílico.

Ah, aqueles instantes de hesitação e angústia das frias maçanetas!

Bom, então olham para trás, não porque tenham esquecido o guarda-chuva ou a chave do carro. Há uma pessoa com quem discutiam segundos antes. Conversa desagradável e que alguma palavra ofensiva estilhaçou. Como dizia, dão um giro de cento e oitenta graus e olham. A pessoa, em geral uma mulher, está de costas e olha através da janela. Lá fora a nevasca castiga o mundo. Os personagens

não sei por que mantenho o plural, mas faço questão do masculino para “personagem”.

Estes personagens não largam a maçaneta. O contato frio da maçaneta é a garantia de que, talvez, ainda reste uma palavrinha mágica que possam proferir e mudar tudo. Olhem para o rosto do segurador de maçanetas de acrílico (abandonei o plural). Imaginem um ponto de interrogação invertido. É uma forca, não é? E é onde está o pescoço do maçaneteiro.

Largá-la acionará o alçapão do cadafalso. Se o maçaneteiro sai porta afora, aquele que teria voltado e falado com ela morre. E vice-versa. Talvez exagere ao dizer que o maçaneteiro esteja no umbral que separa dois mundos possíveis.

Mas não: é assim mesmo, meus caros symparanekromenói.

BOSTERIDADE

Não deveria escrever isso porque, bom, deixa para lá. Pior do que escrever o que vou escrever é iniciar o post de maneira escusatória. No excuses, disse o existencialista.

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Primeiro, a frase fedorenta: “No futuro todos terão meia dúzia de posteridade.”

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Não tenho vergonha de dizer que daqui a cinquenta anos sete pessoas lerão, estudarão e discutirão Marcelo Rota.

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Quem fica constrangido de assumir a esperança da leitura póstuma, deveria fazer vasectomia ou ligar as trompas, conforme o caso.

Não é uma pretensão, é só uma esperança sensata. Por isso faço backup. Não sei até quando os wunders vão pagar a mensalidade do servidor.

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“Fazer filhos é fazer backup.”, outra frase boa e nojentinha.

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O mundo cada vez mais aos caquinhos, qualquer um pode virar uma relíquia para dois ou três (estou ficando mais modesto na quantificação dos meus pósteros leitores). E vão trocar emails sobre este post e outros.

“Rota Society”, “Rota Studies”, etc.

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Toda vez que converso com Adrian Leverkuhn sinto o riso de fantasmas, hoje almas sentadas em poltronas reclináveis, senhas com Número de Avogadro nas mãos, aguardando a sua vez.

O malévolo loga todas as suas comunicações via msn.

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Escrever para os que ainda não nasceram é muito diferente de escrever pelos que já se foram. Falo muito de Proust e penso sobre o que seu fantasma pensaria sobre o que penso dele. Uma fantasia infantil querer que Proust me ache um lindinho.

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No futuro todos teremos meia dúzia de posteridade.

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A EXPRESSÃO está barateada. Todos nós, viadinhos, escrevendo blogs, publicando vídeos caseiros, fotinhas, borrifando letrinhas em caixas de comentários, inventando perfis bacaninhas no orkut e [preguiça de continuar a enumeração]

Tão barateada e difundida a EXPRESSÃO que, pausa para uma afirmação de peso antes dos dois pontos: O GÊNIO MORREU, seu cadáver perdido em algum ponto do que vou chamar de O Labirinto de Gutemberg.

A pessoa morrerá lendo liberinos e outros ruídos antes de chegar ao Elton Mesquita e ao Soares Silva. Os poucos que chegarem não serão ouvidos pelos outros, que estarão ocupados com o ruído. Elton ficará com seus sete pósteros, SS também por aí. Liberino talvez fique com oito só porque escreveu mais.

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Você que não citei, não fique triste: também terá seus sete.

“PRIMEIRO OKLAHOMA!”

Thomas Grasso foi julgado por homicídio em Nova York, onde não há a pena capital, e em Oklahoma, onde há. Declarado culpado nos dois estados, decidiu-se que, primeiro, ele cumpriria a pena de prisão perpétua em NY e, depois, receberia a injeção letal em Oklahoma.

Grasso não gostou da decisão e, depois de muita papelada deliberativa, conseguiu reverter a cronologia das sentenças. “Primeiro Oklahoma!”, exigiu e venceu.

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Agora gostaria de pedir à minha instrumentadora, Amanda, o fórceps para retirar da história de Grasso alguma coisa que ainda não sei o que é.

Obrigado.

Aqui está. Há dois, e somente dois, tipos de pessoa: o que espera em Nova York e o que avança para Oklahoma.

Escrevo mais ou termino assim? Assim.

O CANECÃO CARCOMIDO PELO CARCINOMA

Tenho um canecão de uns 1,5 litros que estampa a admoestação

PRESERVE THE POSSIBILITY

Ou estampAVA. Tenho saudades do dia em que ganhei o canecão, quando o mundo era claro e o futuro, negão.

O primeiro a desbotar foi o P de PRESERVE. Mas reservar a possibilidade ainda me pareceu bom e uplifting. Apesar de, admito, preservar soar melhor do que reservar, que sugere o trabalho de ligar para a companhia aérea.

Os cupins, enquanto isso, iam desfigurando a mesa de jacarandá da sala. As traças, a minha biblioteca. E não sei quanto mais de fumaça venal meus pulmões serão capazes de acumular antes da débâcle. Peguei da estante a Divina Comédia. Alguma operária dos escalões inferiores da litosfera fez ali um trabalho de arte. Um perfeito orifício, o diâmetro do cu de uma barata, que começa no Inferno e termina no Paraíso. Entretanto, não posso saber ao certo se ela seguiu a ordem de apresentação do livro ou inverteu-a. Ela pode ter iniciado no paraíso, passado pelo purgatório até sair pela cloaca do inferno. Incontáveis as letras digeridas durante a trajetória pela leitora onívora.

Hoje o canecão está assim:

SERVE THE OSSIBILITY.

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If I were to wish for something, I would wish not for wealth or power but for the passion of possibility, for the eye, eternally young, eternally ardent that sees possibility everywhere. Pleasure disappoints; possibility does not. And what wine is so sparkling, so fragant, so intoxicating!