AS MIDINETTES DO RIO SUL

A elas recorro para aplacar meu

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palavra merecedora de uma linha exclusiva, mas tímida como uma lacuna. Mas então: saio de casa e, poucos passos depois, já estou no shopping Rio Sul, carregando o meu ar indolente, a tristeza no fundo das minhas pupilas. Logo aparece a primeira midinette, vestidinho cor-de-rosa que, com uma autoridade policial, coloca-se diante de mim e desfere o golpe que explode no meu rosto. Em seguida, já formaram uma fila maior do que a do caixa-eletrônico de onde as observo e, uma após outra, até aquela com pele de magnólia

o que é estranho, pois estamos no verão do Rio de Janeiro,

projeta o punho, onde resplandece uma pulseirinha com o seu nome gravado, contra o meu nariz. Uma variedade torvelinhante de midinettes, axilas raspadas, perfume, pernas, incontáveis seios, todos aos pares, todos com mamilos no centro, todas me estapeando.

O suficiente para que eu retorne para casa feliz.

DER TOD UND DAS MÄDCHEN

A Ruiva e o Daltônico. Este é um mote tão interessante para uma obra de arte, seja um conto, um filme, um romance ou um quarteto de cordas, e, no entanto, tão pouco explorado. Ao contrário de “A Morte e A Donzela”, tema clássico e já praticado exausticamente por artistas das mais diversas disciplinas.

Digo isso porque tenho esta teoria, a de que as ruivas não casam. E isto pela simples razão de que, ocupados em fetichizá-las e em descobrir-lhes a flamejante correspondência cromática, os homens não têm o tempo e a disposição mental para amá-las. Mas aí é que entra a conjunção adversativa:

Mas o daltônico…

HOMEM COM A MÃO LEVANTADA

Fiquei sabendo que na Índia um sujeito mantém a mão direita erguida há dez anos.

É uma maneira interessante, não de passar o tempo, de pará-lo. Desde que o indiano real seja como o que imagino: parado numa esquina de Calcutá, Bombaim ou Nova Deli, como se tivesse sido congelado no momento em que fazia sinal para um ônibus, ou em que apontava para uma vaca observada, durante uma experiência mística, entre duas nuvens, dez anos atrás. Sim, há problemas logísticos, como o da ingestão e posterior excreção. Talvez exista um auxiliar que a cada dois dias lhe dê o input e recolha o output. Não sei. De qualquer modo, esta foi apenas a versão estática do Homem com a Mão Levantada.

Na dinâmica, contudo, ele é livre para levar uma vida normal, comer em restaurantes, andar de trem e trabalhar, seja em Calcutá, Bombaim ou Nova Deli, numa sofware house, onde seus companheiros nem notam mais a mão perpetuamente erguida.

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Esta pessoa ama a vida e goza todos os seus átomos, sem exceção. Anda e quer aproveitar cada uma das passadas. E ele as dá curtas para que tenha mais delas entre a origem e o destino. Enquanto está indo não pensa na chegada, na próxima atividade que terá que desempenhar, talvez a do trabalho na linha de montagem. Mas, quando chega, é algo que ele faz com lenta fruição. Entretanto, ele é rápido e funcionário dos mais eficientes, lento é só o prazer do trabalho. Quase não nota, mas já é hora de ir para casa: aprazível o trajeto de volta. Se chove, as gotas sobre o seu rosto tem o mesmo valor de raios solares em um dia frio, e, se faz calor… Sim, exatamente.

Tudo o que ele faz é erótico, a vida é um jardim, esteja ele em um ou não. É suave, justo, preciso, confortável e belo o seu sono. A felicidade de despertar e começar novamente o ciclo do dia é, como todo o resto, prosperidade, apesar de ele ser pobre.

Algo estranho, entretanto, acontecerá no último dia da sua vida, aos oitenta anos, câncer no esôfago, no leito hospitalar. Suas lembranças, não importa se as mais remotas, da infância, ou do dia anterior, o enfermeiro e o banho de pano úmido, todas estas memórias lhe aparecerão igualmente vivas e nítidas na mente.

A vida inteira, oitenta anos, oitenta anos como se tivessem sido um dia. A mosca que viveu vinte e quatro horas teria vivido mais do que eu, caso tivesse tido o pouco de sofrimento que não tive

…não será seu último pensamento apenas porque ele morrerá um pouco antes de formulá-lo e ter o tempo de sofrer com ele. Ah, mas se tiver um minuto, um minuto apenas para doer e latejar com esta idéia, será espetacular. Os auxiliares de enfermagem e os médicos presentes na UTI morrerão por causa da explosão de cogumelo nuclear do seu crânio. Uma bomba de dor.

EM ARNSTADT

Como todos sabemos, J. S. Bach uma vez caminhou quase duzentos quilômetros, de Arnstadt a Lübeck, apenas para ouvir Buxtehude. E quase perdeu o emprego por conta disso. Reputação é o que falam sobre alguém quando ele não está presente. Elogio é exatamente o contrário, o que falam na presença, exatamente o contrário do que falam na ausência. A maior ausência de todas é a póstuma.

Fôssemos julgar pela reputação que cada um deles possui hoje em dia, Bach deveria ter ficado em casa esperando pela chegada do seu admirador, o organista e compositor Buxtehude. Se a *Posteridade*, encarnada, por exemplo em mim, pudesse telecronotransportar-se para a Arnstadt de então, eu diria a Bach que poupasse a caminhada, melhor o senhor ficar em casa compondo. Mas foi impossível. Não a viagem, mas ter falado com Bach.

Logo que me materializei em Arnstadt senti o corpo pesado. Passei a mão no meu rosto e senti a barba. Arranquei um fio, doeu, era branco e não acordei. Não conseguia andar direito e vai ver foi por isso que percebi na minha mão esquerda um cajado. A primeira coisa que ouvi foi o som maravilhoso do órgão e, apoiando-me no cajado, tentei caminhar até sua origem, a igrejinha que via lá na frente. Um menino ruivo e sardento, dez anos mais ou menos, apareceu e arrancou-me da mão o meu apoio. Caído no chão, recebi os golpes impiedosos da criança que, a cada cajadada que desferiu, gritou: “Anachronismus!”.

QUEM AMA A VIDA NÃO ENTENDE NADA

Aquele personagem do Georges Perec, “Um Homem que Dorme”, desesperadamente indiferente, lendo mecanicamente cada linha, cada palavra da edição do Le Monde do dia anterior. Adoro esse livrinho. Escrito na segunda pessoa, ganhou para mim um tom acusatório que, obediente, logo aceitei.

“É, eu sou assim mesmo, sem húbris, joie de vivre, pathos… E a vida, sem nem mesmo o itálico que serviu de distintivo a estes termos importados, a vida toda é não esta vírgula, cujo anúncio estragou sua discrição e neutralidade, mas uma outra que eu nem cheguei a mencionar, insignificante.”

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Você pensa assim também, eu sei.

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Perec escreveu este livro porque passou por um período de apatia total em sua vida, tentando engolir o universo com um bocejo enquanto coça a barba por fazer. É preciso reconhecer a importância da baba, a que escorre enquanto você dorme no sofá e que, depois de acordar, tenta limpar da almofada. O tédio é uma emoção cardeal. Só quem submerge no seu visgo vive.

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Quem diz que ama a vida não entende nada, absolutamente nada. Ora, o que é a vida senão o que se nos apresenta nas horas mortas em que, deitados, observando a brancura do teto, a teia de aranha em um dos cantos, o pontinho preto, resíduo de uma perna de mosquito morto no ano anterior, sentimos o coração pulsando para nada, em sincronicidade com a barra de inserção do editor de textos?

Eles acham que amam a vida, mas amam a outra coisa: o que colocam no lugar dela,

o movimento, as ocupações, o ruído e as ações,

para esquecer da profunda repulsa que sentem por ela.

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Observe o sorriso do Perec. Exatamente o de quem ama a vida. Não depois de tê-la quase perdido para uma doença ou acidente, nada de draminhas, mas depois do tédio. Porque só depois dele é possível amá-la realmente.

A PSICOLOGIA DA ELEIÇÃO DE ASSENTOS NO TRANSPORTE PÚBLICO

Sou o tipo de pessoa (o tipo mais comum) que fica feliz se, num ônibus com vários lugares disponíveis, a moça resolve sentar ao meu lado. E então fica se perguntando o porquê: qual teria sido o preciso estímulo que a levou a tomar esta decisão? Além disso, o tipo que evita, em um ônibus com diversas opções de bancos, o ao lado da moça mais bonita do ambiente, por achar óbvio demais e que todos certamente pensariam “o espertinho sentou-se com a ruivinha”, e a própria ruivinha, consciente do lugar privilegiado que ocupa na scala paradisi:

“Coitado…”

E ainda aquele tipo que não se sente bem escrevendo em qualquer outra que não a primeira pessoa. Talvez por medo de que isto agrave os processos dissociativos de que vem sofrendo.

O ponto de vista narrativo fundamental, ao qual os outros todos podem ser reduzidos, é este. Pois mesmo quando escrevo na terceira sou *eu* que o faço, ou *você* se, no caso, for *você* quem estiver escrevendo. Mas, ora bolas, “você” é só um modo da primeira referir-se a uma segunda pessoa, o que só corrobora a idéia de que esta é a perspectiva originária do discurso.

Ele era o tipo de pessoa que imediatamente sofre um sopro de autoconfiança se a moça que entrou no ônibus escolhe, em detrimento de tantos outros disponíveis, o banco ao seu lado. Ela, também tipicamente, evitava o lugar que mais a atraía do ônibus, ao lado da pessoa mais atraente, a fim de não, pensava, “deixar esse cara metido demais, mais do que já deve ser”. Daí ter sentado ao lado dele, figura que julgou mais neutra. E eu tive que me contentar com a visão da sua nuca, que os cabelos amarrados deixavam entrever quando o ônibus sacolejava.

Ou ao menos foi isso o que ele pensou, ao justificar a rejeição de modo a salvaguardar a vaidade.

DLFGKTKDLASLA

Bem em frente à janela do quarto há um caminhão de mudanças. “Mudanças Raílton – estaduais e interestaduais” e, embaixo, em vermelho esmaecido pelo tempo, o telefone 225-9876. Do tempo em que os números de telefone tinham somente sete algarismos. Um caminhão de mudanças sem rodas, fixo, abandonado. Prova de que até mudanças podem estagnar. Como se o rio do filósofo grego tivesse secado.

BIOGRAFIA

Às vezes acho, pretensiosamente, que a minha vida mental é como a História, só que numa escala menor. Assim, recém-nascido, devo ter sido um pouco como os hominídeos de quatro milhões de anos atrás. Criança, fui cenário de conflitos sanguinários e sei que alguma parte de mim deixou seu lugar original, em algum recanto da consciência e, como Alexandre Magno saiu da Macedônia para conquistar o Oriente, saiu para descobrir e tomar posse do resto de mim. Morta a criança quando voltava para Babilônia, tornei-me adolescente já no Império Romano, só que, como as analogias são imperfeitas, não tive nem um segundo de Pax Romana e, ao contrário de Roma, não precisei passar por um apo- antes de ter meu hipogeu e ser sitiado por bárbaros. Envelheci durante a Idade Média e, quando Constantinopla caiu, não acreditava mais em Deus, mas ainda cria no Amor. Depois disso, o equivalente às Grandes Descobertas ultra-marítimas dos séculos XV e XVI foram as minhas Grandes Decepções e precisei tentar circunavegar a Terra para entender que nem o Amor existia, ao menos não da maneira como acreditava, redondinho, mas que era achatado feito um panqueca. Eu sei, mas é como disse: as analogias são imperfeitas. E o resto eu conto depois.

CONCURSO

Não serão admitidas, para entrevista, pessoas com os seguintes problemas:

a) Que se apresentarem com orelhas mal dirigidas (acabanadas) ou com prejuízo da conformação;
b) Que possuam prejuízo da visão uni ou bilateral, cegueira, com opacidade da córnea em qualquer grau (olho branco); perfuração do globo ocular e assimetria (tamanho diferente) dos olhos; albinóide;
c) Cujo lábio inferior seja flácido, grosseiro e pendulado, quando em repouso, ou que se balance, estando em movimento, lábio superior torcido para um dos lados da face ou lábio acentuadamente rasgado nas suas comissuras (cantos);
d) Cujas arcadas dentárias incisivas sejam mal ajustadas (prognatismo). Em qualquer idade, e com qualquer grau de prognatismo mandibular, serão recusadas;
e) Com assimetria da garupa, quer observável na largura, bem como na altura das ancas. Só serão admitidas as pessoas que apresentarem assimetrias muito discretas (sutis), que não cheguem a prejudicar a estética. Elas serão passíveis de prejuízo no julgamento;
f) Com alterações nos órgãos genitais masculinos, ausência de testículos na bolsa escrotal e assimetria (tamanhos diferentes) testicular acentuada;
g)Emboletadas, com edemas e quartelas verticalizadas (fincadas) com assimetrias acentuadas das articulações, interferindo ou não na função, com ferimentos (feridas) crônicos ativos prejudicando a estética;
h) Com unhas pintadas de qualquer cor ou por qualquer material, ou de tamanhos acentuadamente diferentes.

Em caso de dúvida, procure um técnico da ABBPM.

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Ele foi, mesmo assim, para a entrevista. Depois da recusa, amplificou a voz, reclamou, protestou, fez passeata sozinho, escreveu cartas para os jornais, pediu uma audiência com um deputado, ligou para o jornalismo da Rede Globo e, como todos esses esforços resultassem em vão, iniciou uma greve de fome em frente a sede da ABBPM. Depois de dez dias sem comer, fraco, já com um olhar que refletia a morte, vivendo apenas das últimas reservas de gordura que o intestino processava e expelia em fezes branco-amareladas, liquefeitas, que ele então usava parte para untar o próprio corpo, parte para escrever suas palavras de desespero no vidro da porta da ABBPM,

descobriu que era o *homem invisível*.

Por mais que se expusesse ninguém o notava, absolutamente ninguém, por mais absurdos e ostensivos que fossem seus atos. Tinha carne, sangue, osso, precisava comer e excretar como qualquer ser humano normal, se cortasse os pulsos sangraria até a morte, como qualquer ser humano normal e, no entanto, era um espectro a arrastar ruidosamente pela cidade sua dor que,

entretanto,

ninguém ouvia. Era imperceptível, a não ser para ele próprio. Antes fosse um abantesma também para si mesmo, mas era apenas para os outros, enquanto ele mesmo sentia, vivia e sofria como qualquer outro ser humano normal. Sentiu-se um Crusoé na cidade de vinte e cinco milhões de habitantes.