62. I CAN’T TOUCH YOU ANYMORE

Eu assisti toda minha “Kurosawa DVD Collection” ser atirada pela janela de um apartamento no 8º andar, também conhecido como meu lar, não muito doce lar.
_Ah, pelo amor de deus! Eu te pedi pra deixar o velho Akira fora disso!
_VÁ SE FODER!!!! VOCÊ E ESSAS PORRAS DESSES FILMES!
Juro que queria voar pela janela, só pra tentar salvar meus DVDs. Claro que não fiz isso. Corri para as escadas e ouví um barulho logo antes de bater a porta atrás de mim – Vidro estilhaçando?!
Desci corredo a seqüência interminável de degraus. A pergunta estava clara em minha cabeça; eu amava aquele homem que tinha mandado pelos ares minha coleção? – Devia ter pego o elevador.
Eu o amava? Claro. Não teria casado com ele por outra razão. Eu o amava. A falta de palavras para expressar os sentimentos, o olhar que misturava um certo vazio a um quê de mistério… essas bobagens e uma série de outras, como sempre.
Quando finalmente cheguei ao hall de entrada tinha uma comoção estabelecida em frente ao prédio; batida envolvendo três carros, gente gritando, pessoas feridas, policia e muito vidro estilhaçado no asfalto.
Perto do capacho da porta estava a caixinha de “Trono Manchado de Sangue”. Abaixei pra pegar e vi o que talvez fosse “Hashomon” estraçalhado embaixo da roda de um VW – Um assassinato estrelado por meu prezado marido. É, ele era especial. E eu andava me perguntando se o amava; sem dúvida. Mas era o velho lapso temporal em que minha cabeça funcionava insistindo em me perguntar no passado algo que dizia respeito ao mais exato presente. Eu o amava há dois anos. Naquele momento, não.
A porta do elevador abriu e ele veio em minha direção gritando, como se eu estivesse a Kms dele… e teoricamente eu estava.
_VOCÊ VAI PAGAR POR TUDO ISSO! VOCÊ VAI PAGAR PELOS CARROS, PELAS PESSOAS, POR MIM, POR TUDO!! TUDO!!
_E quem vai pagar por minha coleção?
_VOCÊ NÃO VAI PRECISAR DELA NA CADEIA! VOCÊ ACABA DE PROVOCAR UM ACIDENTE, É TUDO CULPA SUA! VOCÊ NÃO PRESTA! VOCÊ VAI SER PRESA E SE DEPENDER DE MIM VOCÊ VAI MORRER LÁ DENTRO! QUERO VER O QUE A MESTRA DAS PALAVRAS VAI DIZER À POLICIA!
_Mestra? Eu sou só uma serva. Joyce era um mestre.
Não faz a menor diferença, ele não faz idéia de quem é “esse sacana desse Joyce”. Coitado. E eu, àquela altura, não fazia muita idéia de quem eu era ou que diabo estava fazendo ali. Coitada(?)

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57. EXPERIMENTAL MUSIC LOVE

Experimento simples. Parecia uma boa forma de ficarmos juntos. Dividíamos um apartamento. O menor contato entre nossos corpos matava, por um tipo de combustão, as pessoas que amávamos.
Tempo, proximidade e impossibilidade não mudavam coisa alguma. O que eu sentia por você crescia livremente em meu corpo. Minha pele era o limite.
Meu pensamento sempre escapava pra você – Eu chorava. Notei que minhas lágrimas te mobilizavam. Expurgar meus sentimentos impróprios assim não era uma alternativa.
Tentavámos não nos olhar. Quando meus olhos enfim conseguiam parar nos seus, viam o mesmo tormento, contínuo e infinito. Depois descobrimos que nossas vozes eram um estímulo ainda maior. Paramos de falar.
Às vezes havia música, livros, filmes… nunca eu ou você e sempre a dor cortante e espasmódica que já era um desconforto familiar.
Num fim de tarde, enquanto tomavámos café, sentados à mesa, envolvidos no exercício cotidiano de desviar o olhar um do outro, uma colher cai no chão, displicentemente. Abaixamos pra pegar ao mesmo tempo, nossos olhares se cruzam, eu fecho os olhos – A pressão de seus lábios nos meus. Seu gosto, guardado no canto mais escuro de minha memória, toma todos os meus sentidos.
Acordo; meu quarto, minha cama, meu travesseiro – Odeio esses sonhos que tenho com você.

16. Punk Love

Ontem cheguei chapada do show da Missiles of October e Rupert fez massagem em meus ombros enquanto eu vomitava as tripas agarrada ao vaso sanitário.

59. LOVE IS LIKE A BOTTLE OF GIN

-So, I don’ t really know what’s goin’ on. All I know is that I got married to someone who was like a glass of fine, bubbling and uniquely tasteful champagne. But then I found myself holding someone who was more like my favorite cup of tea. It was ok ’cause that nice, warm and familiar taste comin’ down my throat used to be all I wanted. So, all of a sudden, it was like if the wind coming through the window (I’ d probably left it opened) had coolen my fucking favorite tea, making it taste agressivelly cold… like, too rough and unfamiliar, u know?!
-I see. But wouldn’ t you like to try some ice tea?
-…Well… maybe… but… like, I just don’ t think love should be like ice tea, u know?!

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28. VERY FUNNY / 69. ZEBRA

Grampeei seu sexo e, com meu sistema de comunicação global, triangulo satélites apenas para saber que o seu de vênus está, suponho, com alguém de bermudas. Bermudas jogadas no chão de quarto de hotel em Porto Rico, especulo. Sobrevôo o Triângulo com meu balão de ar quente, vejo menudos em Porto Rico e onde o sinal é mais forte, Zelda, a zebra que lhe dei, Zilda. Ela corre através de um campo de golfe. “Me dá uma zebra!”, você havia dito. E “Eu te amo, meu amor!”, quando viu Zelda com lação vermelho. Acreditei, mas agora só acho tudo muito engraçado. Farei uma bolinha de papel com este bilhete e depois

saltar.

Meu objetivo é cair em cima de Zilda para cavalgá-la, mas sei que nunca mais vou poder ter filhos, ainda que sobreviva, o que sei impossível. Mas você nunca quis mesmo, nem uma nem outra coisa. Estou morrendo de rir.

22. SWEET-LOVIN’ MAN

O rádio confirma a previsão da meteorologia, uma hora de sol. Após um milhão de anos de chuvas incessantes a cidade presenciaria a hora inteira de céu azul.

Devido a minha longa pesquisa sobre o tempo, viajei dias em busca da observação do fenômeno. Cheguei ainda, felizmente, sob uma chuva calma, e melancólica como toda chuva calma.

-Dia.
-Dia.
-E essa chuva?
-No fim da tarde, parece.

Cidades que vivem sob o regime da chuva de um milhão de anos são conhecidas pela pouca loquacidade de seus habitantes. Sentei-me sob a chuva no banco da praça, vendo a diversidade de cores dos guarda-chuvas. “São a exótica flora local”, riu-se e sentou-se ao meu lado.

-Vim esconder-me, completou; e logo se principiou a primavera de uma hora. Era audível o som do de tudo sendo fecundado. Todos os mortos descansaram, alguns moribundos se foram, outros ficaram, doentes andaram, mulheres pariram e meninos se tornaram-se homens, e mais todas essa coisas que são lembradas quando se pensa em Vida. Mas eu não penso na vida, e do tempo só se diz que se diz dele quando não se tem o que dizer, e falando do tempo

Por alguma razão uma hora me pareceu o suficiente. “Esconder-se em praça pública?” “Claro. Você me dá cobertura.” E me deu uma piscadinha.

14. HOW FUCKING ROMANTIC

Estar apaixonado é um estado bizarro mas… ah, foda-se! É muito bom achar fantásticas as coisas mais triviais: o céu azul (brilhante), o sol (esplêndido), eu (radiante) de pé, esperando você há mais de uma hora e a chuva que acaba de começar a cair. Não tenho onde me abrigar.

9. LETS PRETEND WE ARE BUNNY RABBITS

I’ ve given up my beach boys’ tape for a love epiphany that unleash all my animal instinct – Oh, I long to nibble your ears!
None of us will ever be the same again.
No love will ever be good enough again.
…I just don’ t wanna be human anymore… not ever again.

26. WHEN MY BOY WALKS DOWN THE STREET

Whole new kinds of weather, unnoticed. Descendo várias ladeiras não muito íngremes e seguindo reto por uma rua estreita em cujo lado direito há uma praça pequena onde de um lado velhinhos jogam dama e do outro adolescentes bebem vinho, há um hotel. Em um de seus quartos se dá um estranho fenômeno meteorológico: a temperatura varia de acordo com a distância entre os corpos de seus habitantes. Quando ela aumenta mais de um metro, há terríveis nevascas que atingem diversos países cartografados ou não. Quando a distância se iguala a zero, combustão espontânea em transeuntes ao longo de quilômetros de bulevares.

40. PAPA WAS A RODEO / 47.UNDERWEAR

Estou em um alpe, pastoreando cabritos saltitantes. São também o meu único alimento.

Muito frio. Uso dois casacos, o marrom e o preto por cima. O preto acho que voce conhece. Mas não sei se notou ele ter um capuz. Eu me fecho nos casacos como fecham defuntos em esquifes. De capuz e óculos escuros, ouvindo Leonard Cohen, pareço La Mort, e os cabritos montanheses fogem de mim. L’amour, La Mort amoureuse de toi, ma pucelle.