Acrescento que Jean Robeck foi um missionário jesuíta. E mais do que isso não sei sobre ele. A não ser que não está presente na Wikipedia e que foi salvo do esquecimento por este breve relato do barão Friedrich Melchior von Grimm, este sim verbete da Wikipedia.
O barão escreveu sobre tudo e todos na sua correspondência, a princípio sigilosa e só publicada postumamente, em 16 volumes. Um bávaro morando em Paris, seus destinatários eram sobretudo membros da nobreza do norte da Europa. Escrevia a fim de informá-los sobre o que acontecia na capital onde tudo acontecia. Era como uma newsletter ou um fanzine por email, que contava entre seus assinantes a rainha Catarina II da Rússia e Stanislas Poniatowski, soberano da Polônia, além de vários príncipes germânicos.
Mas por que estou escrevendo sobre o barão? Na verdade quem me interessa é Jean Rodeck, que não interessou a ninguém fora o barão, e mesmo assim só durante os instantes de algumas cinco linhas de uma obra de 16 volumes, mas que bastou para atrair a minha atenção — horizontal, inquieta, dispersa nas superficialidades de um mundo sobre-instruído. Onde está o livro de Jean Robeck, onde encontro a sua apologia ao suicídio? Ok, não é nem Robeck que me interessa, tampouco o seu livro. É, primeiro, a graça e o pitoresco de, depois de tê-lo escrito, convencido pelo próprios argumentos, realizar o corolário prático destes. Morreu, imagino, julgando-se mártir da própria coerência. Depois, a ironia final de, post-mortem e tarde demais para contestar, ser refutado em notas de rodapé ao seu texto acrescidas pelo editor, o amigo a quem confiou a publicação da obra de sua vida. É como se tivesse morrido duas vezes: primeiro pelas próprias mãos e depois pelas do amigo.