008 Malta

No dia seguinte distraíram-me algumas personalidades a bordo do Delly. Logo fez-se notar um oficial da Índia em cujo rosto a barba aderia como uma grossa camada de ferrugem, o que, ajuntado ao queixo projetado e arrogante e ao olhar de voracidade bárbara, lhe fornecia os aspectos do saxão antigo. Tomava cerveja com um gesticulário operístico: em goladas contínuas, largando em seguida, com um estampido, o canecão sobre a mesa. Seus movimentos eram rápidos e brutos, ainda que precisos, as passadas firmes, de marinheiro; a voz, poderosa e altissonante, própria de quem comanda, a despeito de, ao palestrar com a sociedade a bordo, ser quase doce nas suas expansões. Tinha, enfim, esse diagnóstico de quimera, uma força centáurica e uma energia primitiva que a vida moderna conteve e disciplinou.

Uma inglesa nascida no Industão era ainda mais estranha. Naquele ambiente de senhoras anglicanas sua presença imprevista agredia o olhar. Buscar os seus olhos por detrás do véu claro que ostentava era um pouco como adivinhar, através de musharabias, os movimentos de uma orgia celebrada em quarto iluminado. Era alta e misteriosa como um ídolo. Seus braços nus, o decote que a mantilha mal escondia e os lábios grossos e sensuais compunham com o uso do véu um paradoxo que me fazia doer o cérebro.

De noite, quando estava na minha posição usual de insone, fumando à proa, pude vê-la pela segunda vez. Apareceu de repente, em um ponto mais central do convés: aproximando-se da amurada com passos lentos, ficou então a olhar para o mar, enquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam de vento e lhe davam uma aparência ondeada e balançada, que a assemelhava àquelas divindades que os escultores antigos enroscavam nos flancos dos galeões.

007 Malta

No Delly, paquete da Índia, deixamos Gibraltar, o seu severo e brutal cerro assombrando as nossas nucas com tiros imaginários de canhão. The Rock, os ingleses o chamam, e talvez ele seja metonímia exata da estirpe e do gênio daquele povo insular. Castlereagh, no Congresso de Viena, descreveu a idéia da Santa Aliança como “a piece of sublime mysticism and nonsense” sugerindo o horror ao abstrato e ao puramente especulativo compartilhado pelos filósofos empiristas de sua raça, que cultuavam e buscavam “the rocky bottom base of knowledge”. Enquanto isso, Napoleão imprecava, do seu exílio em Elba, contra “a maldita nação de mercadores”. E assim temos, no conjunto das opiniões dos próprios nativos e na de detratores estrangeiros, uma impressão equilibrada do que seja o inglês e seu espírito, o Morro de Gibraltar mais propício como símbolo e representação do que toda a heráldica oficial.

No paquete a viagem é monótona: senhoras filantrópicas querendo civilizar os indiozinhos e fundar escolas no distrito de Calcutá; moças com nuvens d´ouro sob os chapéus de palha, corretas, jovens esposas de capitães da Índia, com passinhos ágeis de mulheres atarefadas; homens praticando um ar enfastiado, fumando impassíveis no convés, uns em espreguiçadeiras lendo jornais ou livros sobre os costumes dos povos bárbaros, outros em pé, olhando o horizonte, provavelmente pensando nas tarefas e ocupações que lhes aguardam ao final da viagem. Durante a noite, da proa, admirei por tédio a simetria com que o avanço da embarcação repartia as águas, formando duas linhas rápidas, luminescentes de luar.

006 Gibraltar pela Manhã

De cima de um pequeno terrapleno vê-se a cidade. Ela foi construída com a discrição e o sentido de conforto exemplares do inglês, e também uma certa timidez típica dos povos insulares, uma reserva de alma que, em arquitetura, evita as sinuosidades e acolhe o traçado retilíneo. Mesmo assim o inglês é também um extrovertido, daquela expansão do espírito que, rompendo o círculo de tédio e melancolia natural do ilhéu, sai de si, viaja e conquista. Em que diferem dos portugueses é sobretudo nisso: no esforço de reagirem ao retraimento de ilhéus, quando o vencem, ainda lhes resta um resíduo e uma memória da timidez abandonada, o que lhes dá um cálculo e uma cautela de que portugueses carecemos. Em nós o ímpeto foi natural, um ardor imediato, propício para as conquistas e impaciente para fazer-lhes a manutenção. Por isso estão ali, na misérrima pontinha da Peninsula Ibérica, num posto de vigia e guarda, fiscal do que entra e sai daquele mar crucial que, não fosse pela passagem do Estreito, seria algo como uma ilha invertida. Os ingleses são a válvula do mediterrâneo.

Embaixo, na praça, um batalhão vermelho e loiro manobra ao som da Canção do General Bum.

005 Gibraltar pela Manhã

Ao fundo, o morro de Gibraltar ergue o seu perfil calvo e violento. Seu aspecto cruel e insondável como o de um deus primitivo, expresso na nudez de rocha, contrasta com a abertura dócil das águas da baía.

Seguimos para o cimo através de um caminho escarpado. Lá foi confirmado o que já se adivinhava: o penedo, se não era propício como paisagem que descansa e enternece o olhar, servia bem como fortaleza a inspirar cautela ou covardia de espanhóis e franceses. Os ingleses esculpiram ali um reticulado de vias e galerias, transformando-o em arquitetura granítica e belicosa. Por cada buraco o vento mediterrâneo acariciava e a luz solar iluminava a substância gorducha de um canhão que ali se assentava com ar estúpido.

004 Gibraltar pela Manhã

Deixamos Cadiz ao entardecer, a cidade desfazendo-se atrás das iluminações pulverizadas pelo poente. Quando a noite desceu, brilhou o farol de Trafalgar mais do que o fosco da lua. Depois o farol de Ceuta. Gibraltar surgiria então a bombordo. Entrefechava os olhos num esforço de ver melhor suas luzes distantes, mas só conseguia o efeito ótico de seus raios refratarem-se caóticos. Os passageiros conversavam ao redor.

***

Pela manhã desembarcamos. Uma luz serena e ampla espiritualizava as coisas, dando-lhes um aspecto de Geografia e de livros de Humboldt. A diaphaneidade das águas permitia ver o fundo da baía coberto d’um musgo fino e d’ervas que se curvavam e trepidavam sob a lenta corrente, como os antigos animais sob as carícias dos Profetas.

Subi o olhar e, mirando-o o mais além possível, a cena e o ambiente suscitaram-me as seguintes notas tomadas na hora:

O Estreito em cujas margens Deus fez dois promontórios invisíveis, de onde, ora num ora noutro, observa desde sempre, risonho e sentado, os pés a balançar no ar, a passagem de guerras e comércios: Admirável Cu da História, única cloaca dúctil nos dois sentidos!

003 Cadiz

A raça parece ter degenerado da antiga beleza vigorosa e viva da gente andaluz. O observador encontra nas ruas rostos de traços indefinidos e quase sem expressão, a não ser por aquela que Medtner chama de “miopia temporal”, que é o olhar opaco das preocupações da próxima hora, embaçado para os ermos da imaginação. Só de quando em quando, raras vezes, encontra as fisionomias do antigo typo: finas, altivas, veemente em suas mandíbulas alongadas, e intrépida no olhar. Mas em geral sente-se a intromissão da vida moderna.

002 Cadiz

Uma parte de Cadiz é branca, nova e retilínea: parece ter sofrido, como Paris, processo de hausmannização, no qual, para o favorecimento do comércio e da positividade, troca-se, pela comodidade material, a sensualidade dispersa. Acrescente-se a isso a pompa enfática do gênio espanhol. São ruas que se estendem ao ponto de fuga do horizonte, entre casas brancas, límpidas, recortadas por janelas longilíneas e balcões envidraçados. Ao alto, nus e brilhantes, sem arquitetura, abertos para o grande céu, espraiam-se terraços.

Cadiz aproveitou para suas construções modernas tudo quanto da antiga arquitetura mourisca ou árabe é uma necessidade higiênica ou climatérica: os balcões avançando, oferecidos, para a rua, o mármore, o tijolo e uma certa nudez de ornatos, de móveis e de estofos. Cedendo ao novo ascetismo, que é a frugalidade prática e objetiva do homem hodierno, eliminou tudo o que vai além da eficiência: a graça, a phantasia e o pitoresco da arquitetura árabe. As grades esculpidas, rendilhadas, feéricas, as colunatas delgadas, a forma das janelas esbeltas — tudo isso foi esquecido.

Mas houve ainda no engenho deste Haussmann oriental responsável pela reconstrução, o cuidado de burocrata (que quer parecer saudoso e sensível) em separar da nova urbe a velha. Esta foi preservada do desadoro reformista como o marido que, com muito esforço e apenas parcialmente, contém seus apetites, para que não se espantem mundo afora, além dos limites de decoro do matrimônio. Assim, na Cadiz Velha, temos os ornatos e monumentos mouriscos; e as ruas tortuosas que parecem enrodilhar-se sobre si mesmas, estreitas, nas quais, as seguindo, ora nos surpreendem com o fim de um beco, ora se espargem em praças ajardinadas, de camélias, cedros-do-mato, louros e uvas-da-serra.

001 Cadiz

Dobramos o cabo de S. Vicente sob um luar digno daquele que fez rebrilhar a adaga de Macbeth na noite do assassínio. O mar infindável, sereno, sem trevas, mas belamente escuro, tremia sob o grande raio luminoso da lua como os antigos animais sob as carícias dos profetas.

“Como os antigos animais sob as carícias dos profetas”. Alguns dias depois, no Delly, paquete da Índia, pensaria nesse mesmo símile enquanto uma inglesa nascida no Industão ria ao contato do meu fero bigode português.

À direita do vapor, negro, de perfil, erguia-se o Cabo, de linhas precisas e nítidas, e a decoração admirável da noite assentava silenciosamente em redor.

Ao outro dia, no termo do mar azul-cerúleo, aparecia, recortando no profundo céu as suas linhas retas, fresca e branca, Cadiz.

AH, SEU IDIOTA

Há aquele adágio samuraico, acho que está no livrinho do Musashi, o dos cinco anéis: viver mesmo quando não se tem mais vontade nenhuma de viver. E por que então há o seppuku? Ah, seu idiota, seppuku é matar-se quando se quer continuar vivendo.