vargtimmen

Ontem, meia-noite, vargtimmen, eu, bergman-like, me preparava, como Cage o piano para um concerto, para dormir, quando:

o telefone toca (92056659)
Era a minha filha:

Pai, tava aqui sem nada para fazer, sem conseguir dormir. Dormi a tarde inteira… Aí lembrei do nome do seu blog, encontrei e fiquei lendo.

(Era o do wundermuseum, saberia depois, sem saber se era para ficar aliviado mas ficando mesmo assim, afinal há logo abaixo um post com foto do Kern, o nudógrafo que há pouco tempo escolhi para ser o do meu coração. Uma amiga tenta me amortecer as preocupações dizendo: “Aos quatorze eu já tinha descoberto Rocco Siffredi!”.)

E então ela intercalou citações de posts meus com comentários como “isto é genial” e “é exatamente assim que eu me sinto”. E eu, moizito, tive a percepção do que é ter uma filha com idade para me ler. Fui contar isso para um amigo e ele não entendeu. Para outro, que também não. Fui dormir pensando que não deve ser nada demais mesmo, decepcionado, carente de marcos históricos. Ou experiências transfiguradoras, como essas que pessoas tolas procuram em chás de cogumelo, cirurgias para redução do estômago, peregrinações devotas, clubes de swing e insights com o psicanalista. Eu pelo menos não tinha procurado nada, e por isso , além da avaliação justa de ser mais sensato do que os outros, tive a esperança retrospectiva de ter encontrado.

“Esperança retrospectiva”…

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O mito do vampiro vem desse desejo de transformação, penso entre parêntesis. A alvorada da estréia, depois da mordida de contaminação, na qual o recém-vampiro observa os primeiros raios de luz protegido pelas últimas nesgas de sombra e noite, revela um mundo até então inédito, onde os significados de dia e noite se invertem e tudo o mais se transforma. Alguém que experimentou dar a bunda me contou que tinha mais ou menos essa expectativa ao se decidir, mas viu, ao amanhecer, que não era nada demais, ainda que, quem nunca teve essa vivência, \o/, acredite no contrário, quer dizer, vê o ato como um envenenamento irreparável da virilidade, um momento que é o verdadeiro Rubicão da identidade de macho( um daqueles casos em que a ilusão, se for mesmo uma, merece ser cuidada e alimentada com dedicação). Enfim, a conclusão inelutável é que o sucesso e difusão do mito do vampiro se origina na verdade do desejo , enviesado e escamoteado, de dar a bunda.

***

Ao acordar, imaginei, com razão, que juízo de filha é mais objetivo do que o de mãe, o que também não deve querer dizer muita coisa mas tampouco me impediu de ter passado o dia bem, depois de ter acolhido com uma estratégia de cactus o elogio da véspera. Ainda agora penso ser um gênio. E, no entanto, nada mudou.

QUEM É DORIS MONTEIRO?

Uma musga que só descobri agora. Você, entretanto, espertão, há muito já tinha conhecimento dela.

Interessou-me porque parece ser sobre “mulheres que deixam finalizar na cara” e achei isso muito pitoresco, gráfico e, o mais importante, totalmente projetivo da minha mente onde tudo é enviesado e nada é direto. Além disso, tudo na vida, pelo menos na mental (que talvez seja toda a vida que há), é associação de idéias. Sempre que duas, de início muito distantes, são aproximadas, e aproximadas sabe-se lá como, pois é sempre por um golpe misterioso da inteligência, Deus dá um gemido. Talvez em reação à soberba do artifício de quem alterou Sua obra. Mas nesse caso Ele nem vai ligar: já estavam pertinho desde sempre.

Enfim, sei lá, ouça aí.

doris

RADIO SILENCE


Jascha Heifetz plays Paganini Caprice No. 24

(que às vezes parece um mosquito atacando Pearl Harbor, outras uma mulher gritando durante o ataque, enquanto formiguinhas marcham indiferentes sobre o alpendre, e, finalmente, uma pulga gordinha de sangue, soprano, e cantando ora triste ora eufórica diante de tudo o que está acontecendo no mundo)