Tempos muito difíceis estes. A ansiedade vibra em cada célula, e faz com que elas lhe correspondam. Quer ver? Sustente a mão aberta em frente a seus olhos e verá que não domina o seu polegar, que treme contra a sua vontade. Você é como uma animação rotoscópica, aquela dos filmes A Scanner Darkly e Waking Life. Ou então é mesmo o Temor e Tremor do Dinamarquês.
Ah, vi um filme! Não interessa qual, porque, se disser o título, o que escreverei em seguida valerá um spoiler, e o tal filme não merece isso. O jeito é torcer para que você um dia, por acaso, o veja. Então já terá esquecido do que leu aqui.
Ah, vi um filme! A primeira linha da sinopse seria assim: [personagem] enlouquece de tanto estudar Kierkegaard. Achei bonito e verdadeiro. K. é mesmo enlouquecedor se a gente o estuda com a devida obsessão. Mas ainda estou longe disso.
- Mais perto do que deveria…
Quem disse isso?! Bom [pigarro], no final, depois de ter passado uns dias sumido, fora de cena, e com os familiares já o dando como morto, reaparece. E ressuscita a cunhada, que, parturiente, morrera pouco antes de ele fugir de casa e fazer o Völkerwanderunguizinho particular pelas vizinhanças. Só usei “Völkerwanderung” plus diminutivo porque ele é assim, mezzo transcendente, meio histórico, quer dizer, totalmente bíblico, um daqueles líderes que, quando migram, mesmo quando só passeiam, levam como cauda toda uma raça fantasmal. Seria ele ainda 1/3 ridicule et grotesque, se a matemática permitisse.
Queria fazer um estudo a respeito do seguinte tema: de como um feelme com este resumo
Estudante de teologia enlouquece de tanto estudar Kierkegaard, se julga a Segunda Vinda e, no final, ressuscita a cunhada.
pode ser excelente. Sem excessos retóricos, o filme solta você novamente para o mundo com o olhar meio vago, indolente, idiota mesmo, achando tudo um pouco diáfano, quando em realidade é você que está, e não o mundo, e você confunde seu corpo com a própria sombra, julga possível infiltrar-se na matéria, atravessar portas de vestiários femininos.
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Outra coisa:
Gosto quando a cunhadinha, ao ressuscitar, ainda no caixão, beija o rosto (o rosto, porque o filme é avoengão) do marido, com a boca aberta e numa expressão de grande volúpia. Ora, é assim mesmo que voltam os ressurrectos! Lembro do pudor realista de certos pintores renascentistas que
bom, na verdade eles, antes de realistas, eram “anjos com falo” (para seguir um eufemismo medieval).
que escolheram retratar a ressurreição de Cristo com este portando uma carnalíssima ereção. Afinal, é a ressurreição do corpo, não é? (Depois eu acho essa imagem.)
