Um homem carrega pelas ruas de uma cidade um punhado de torta de morango na mão direita, erguida na sua frente à altura da testa. Nós o vemos pela primeira vez subindo a escada do metrô para a rua, seu cabelo ralo fazendo uma dancinha no vento. Dentro das lojas pessoas escolhendo óculos se perguntam quem é? Quem não é? Anda rápido pelas ruas cheias do centro e quando passa perto de alguém levanta mais o braço até que a mão fica acima da cabeça de ambos.
O pedaço de torta tem três cores, bege na camada de baixo, branco na do meio e vermelho na de cima, mas como o punhado está despedaçado a parte branca está mesclada de vermelho e partes da torta estão caindo, bem devagar, entre os dedos. Ele usa um casaco de couro marrom, camisa jeans, calça jeans, tênis marrom. Usa óculos de leitura e está com o rosto franzido, não de raiva propriamente, mas de determinação.
E nós o vemos andando ao longo dessa avenida toda e entrando em outra, e depois em outra. Finalmente chega perto de uma mulher, que está em pé do lado de fora de uma loja de perfume conversando com uma amiga, e diz: “Toma, eu insisto”, enfiando o pedaço de torta de uma vez só na boca escancarada da mulher. A amiga da mulher grita e a mulher mastiga. Ela mastiga tudo enquanto a amiga se protege do homem se escondendo atrás de uma bolsa enorme.
-Hmmm – diz a mulher, mastigando ainda. – Sabe que até que é boa?
-Eu falei!
O homem se vira e começa a andar na direção de onde veio, limpando os dedos no muro de um estacionamento; e a câmera imaginária deste parágrafo o persegue ao longo da avenida, e da outra, e da outra, sempre muito além do necessário, até que ele desaparece na estação de metrô de onde veio.