OS NOMES

A tempestade Beta chega ao Caribe, diz a manchete. Ao que parece os fenômenos meteorológicos, eles decidiram, não serão mais designados por nomes próprios como “Wilma” ou “Nivaldo Cordeiro”, mas com letras gregas. E começaram com Beta. Beta?!

Polícia mata bem-te-vi no morro, diz outra manchete. Ah, não consigo mais simbolizar metáforas. Para mim foi com espingarda de chumbinho mesmo. Na foto os poliça se abraçam felizes. “Matamos bem-te-vi!”, parecem dizer enquanto se abraçam no estilo encontrão, como jogadores de futebol americano depois de marcar um um um, sei lá como é o nome daquilo. Touchdown?

“OS TESTÍCULOS DO TITIO”

Esse era o título do conto que inscreveu em um concurso de nanocontos. Seu nome era Carlos ou Carlúnculo, sua condição era a de anão. Seu conto era assim:

Papai casou com a mamãe grávida de mim. Ele, quarenta e oito, ela, dezoito. Hoje tenho dezessete e, façam as contas, a minha mãe, trinta e cinco. Tenho ainda duas irmãs, uma dois e outra quatro anos mais nova do que eu. E parem de fazer contas, por favor, pois a minha mãe, eu a vi hoje de joelhos na casa do meu tio Haroldo, irmão caçula do meu pai. Meu tio, com papai sempre em viagens de negócios, sempre cuidou de mim como um pai.

O espelho na parede do quarto do tio Haroldo mostrava a minha mãe ajoelhada. Escorreram bebês, milhões de bebezúnculos, pelo lábio inferior de mamãe. Será que eu poderia ter sido um deles?

Carlão, que não é anão, é o filho de Carlúnculo. Um dia Carlão est

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A MATRIOSKA E O MATRICIDA

Descobri que minha mãe não me amava quando, aos cinco anos, ela me deu de presente de natal uma matrioska. Uma matrioska de um metro na qual cada boneca contida é sempre um milionésimo de micrômetro menor do que a que a contém. Obviamente, morrerei antes de chegar à menor de todas.

***

Agora, meia-noite e um quarto, sombras de catedrais, múmias forçam do meu quarto a porta. Dentro, mamãe é morta.

PIADAS DE MULLA NASRUDIN (2)

“Eu tenho saúde para dar e vender”, disseram a Mulla Nasrudin. “Então me dê um dos seus rins que eu vendo”, respondeu o Mulla.

DFGKDFG

Tenho certeza que as peçonhas com furor exclamativo, aquelas que escrevem “Oi, Marcelo!”, “Tudo bem!”, “Não sei!”, “Estou com sono!”, exercem através do artifício um esforço de compensar uma vida morna e reticente!!

(Viram como as exclamações deram ao longo período um ar de “eureka”, uma eureka gay e cacófota?)

PIADAS DE MULLA NASRUDIN (TRADUZIDA)

Pediram ao chefe que escrevesse uma carta de referência para Mulla Nasrudin, que ele estava demitindo após apenas uma semana de trabalho. Ele não queria mentir, nem chatear o Mulla desnecessariamente. Então escreveu: “A QUEM INTERESSAR POSSA: MULLA NASRUDIN TRABALHOU PARA NÓS POR UMA SEMANA, E ESTAMOS SATISFEITOS.”

PIADAS DE MULLA NASRUDIN

Perguntaram a Mulla Nasrudin por que ele fumava tanto.

– Não tenho vontade de viver além do último cigarro.

– Vejo que você não acredita na vida após a morte…

– Não, mas gostaria, pois então não haveria O Último Cigarro.

PROPAGANDA DE CIGARRO

Não vou fumar mais nenhum cigarro, este aqui vai ser o último, pensou. Achando que não seria suficiente apenas pensar, repetiu em voz alta:

– Não vou fumar mais nenhum cigarro, este aqui vai ser o último.

A fumaça se acomodou às estreitas faixas de luz solar que entravam pela persiana. O quarto ficou listrado de fumo dourado. Observou a ponta incandescente do cigarro, o anel de fogo que consumia em uma espiral descendente o papel branco. Estava inspirado e inspirou mais uma vez. Ficou olhando para a torre de cinza enquanto girava o cigarro entre os dedos. Viu uma pareidolia nas cinzas da torre, outra nas espalhadas pelo cinzeiro e a terceira, a efígie de Napoleão na fumaça. Expirou, apagou o cigarro e achou aquilo tudo bonito demais para ser a última vez.

***

Dois soldados alemães em Stalingrado. Um deles aproxima o cigarro dos lábios do outro, que está com a cabeça enfaixada e uma perna e meia. Mas ele expirou, dizendo “mamãe”, antes da chegada do cigarro. O amigo fumou o resto pensando na própria mãe.

DISTOPIA 2457

Um mundo imaginário e impossível é o da anonimia universal. Ninguém tem nome, ninguém tem reputação, um mundo onde todo mundo é ninguém. Nenhum poderia orgulhar-se ou envergonhar-se de ser alguém ou de ter feito tal coisa, porque as ações, boas ou más, seriam inimputáveis, afinal, não há identidade.

No nosso mundo, de nomes e identidades, é curioso notar e anotar isso, então anotem:

A ação má deve ser feita com tal discrição que não se possa vinculá-la a seu autor. Assim, este pode, sem ser responsabilizado pelo dano causado, desfrutar dos benefícios obtidos pela ação danosa, como a honra e o poder.

As ações boas devem ser feitas com publicidade suficiente para que o autor goze da repercussão. E assim ter honra e poder.

Entretanto, se observamos alguém honrado e poderoso, como identificar a fonte de seu status, se o mal ou o bem? É da natureza do mal ocultar-se, assim como a do bem é publicar-se. O homem bom é discreto.

Voltemos ao slide do mundo da anonimia. Este aqui. Olhem bem. A boa ação neste caso seria realmente boa, já que ela não possui autor identificável. A ação má, também irresponsabilizável, poderia ser cometida sem medo de punição. Porém, vejam este gráfico. O mal no mundo de nomes é perpetrado para que se possa ganhar pontos de boa reputação. Ele elimina a pessoa e faz sumir o cadáver. Depois escova os dentes e dá um nó perfeito na gravata. A elegância, a metrossexualidade do Mal. Lembrem que a morte é um dândi auf ein Pferd. Na anonimia não há reputação, boa ou má, então o objetivo de se praticar o mal fica esvaziado e perdido.

Anotem. Na próxima aula mostrarei que, ainda assim, o mundo da anonimia é pior do que o nosso mundo.

A ESTRANHEZA DO MUNDO QUÂNTICO

Schrödinger tinha três esposas. Só uma delas não era gêmea de outra esposa. Não havia um traço, uma característica que uma gêmea tivesse e que a outra não possuísse, e vice-versa. Ele queria muito saber qual das duas estava comendo em determinado momento. Tatuagens e roupas diferentes não funcionavam. Quando colocava um vestido vermelho em uma, a outra aparecia imediatamente com um vestido idêntico, violando a velocidade-limite, a da luz. Contou para Einstein, que não acreditou e o mandou tomar no C. Concebeu a famosa equação de onda para distinguir as gêmeas. Como se sabe, houve, entretanto, o colapso da função de onda. E Schrödinger nunca mais comeu ninguém.