IVES, CHARLES IVES

decidiu ficar rico apenas para poder ter mais liberdade para compor. Sabia que não conseguiria sustentar sua família com dissonâncias. Melhor sustentar as dissonâncias com uma companhia de seguros, a Ives & Co., que logo se tornaria a maior do país.

***

Compositor de The Unanswered Question, como se houvesse uma respondida a não ser a do telefone. Este, aliás, ocasionalmente não respondo, ou então vou lá na chavezinha do ´ringer´ e coloco-a em ´off´-

***

Ives, Charles, certa vez, aos quarenta e tantos, já rico por causa da sua companhia de seguros, desceu as escadarias do sótão e, lágrimas pela barba, disse para a esposa com uma inflexão de “incêndio no sótão”: “não consigo mais escrever música”.

***

Oates, Luke Oates, inglês, fraudou o fisco britânico em 38 milhões de libras. Descobriu Wittgenstein no presídio da rainha. Poderia ter reduzido a sua pena em alguns anos se tivesse concordado em devolver todo o dinheiro desviado. Não, melhor passar mais tempo nos aposentos da rainha do que sair mais cedo, pobre e sem ter terminado de ler todo o vienense.

Quando saiu, aos cinquenta e cinco, foi para um fjord norueguês escrever. Trinta anos depois morreria. Jamais gastou um centavo do dinheiro. Seu legado, o romance “The Great National Temperance”, criptografa em suas mil setecentas e cinquenta e cinco páginas o mapa do tesouro.

A HISTÓRIA DA VIDA PRIVADA DAS PULGAS E FORMIGAS

O gato da casa trouxe pulgas para nós. E uma delas, pretinha e gordinha, surgiu sobre a página do livro que eu tentava ler. Bem em “repinicados”, onde minha unha aterrissou na tentativa fracassada de dar conta da pretinha. Neste momento ela, sorridente, já estava em “bosque”. Desta vez fui com mais calma, queria emboscá-la como uma leopardo faria com uma gazela, mas a minha unha não é tão sorrateira como um e a pretinha é mais alerta do que uma. Lépida, saltou do livro para perder-se da minha vista no infinito do quarto.

Como vocês sabem, livros são objetos supervalorizados, na verdade, não servem lá para muita coisa. Em geral são chatos como este que continuei lendo depois do episódio da pulga. Até que, finalmente, fui outra vez interrompido por um habitante dos escalões inferiores da litosfera. Uma formiga. Fiquei então observando a beleza irregular do seu traçado sobre a página. “Maçada”, “glóbulos”, “cinzento”, “pele”, “túnel”, “troçava”, algo por aí. Mas lembro claramente que “Bexiguentos” foi por onde ela saiu do livro.

O resto da noite foi perdido na empresa de encontrar, testando diversas combinações possíveis, a sequencia das palavras da pulga e da formiga que exprimisse algum oráculo.

Posted in pulgas. 2 Comments »

POEMA DO POETA CONCRETO NEOFRUSTRADO

Já sonhou com o Jabuti?
Eu já.
But I
lost it.

VIVA O QUE É BOM

72557.gif

O HOMEM QUE MATOU JÔ SOARES

Inacreditável o número de pessoas, peçonhas de respeito, amigos meus, como o _______ e até o _________, que fantasiam entrevistas para o Jô. Picturializam-se de pernas cruzadas na poltrona do Jô, que horror. E ensaiam as respostas, as piadas e os gestos. Alguns não confessam, mas estes também. Você também. Eu também, só que ao contrário de você, exatamente porque sei que fantasio e que a fantasia é de pedestre e universal, jamais concederia.

ALCATRÃO, NICOTINA E MONÓXIDO DE CARBONO

threesome que se diverte nas alcovas dos meus alvéolos pulmonares. Fazem até algemas chinesas. Nicotina é uma moça pneumática, segundo o Monóxido de Carbono, e safada, como diz o Alcatrão.

***

Sério agora. Algúem em algum lugar tem uma namorada chamada Tina. “Nicotina”, diz ele, lúbrico, no ouvido dela. Talvez ele até seja muçulmano e se chame Al Catrão e diga essas coisas no catre das mil e uma noites, enquanto o Monóxido de Carbono, eunuco nu, declama o Alcorão.

***

Mais sério ainda. Jean Nicot (c1530-1600), embaixador da França em Portugal, compilou um dos primeiros dicionários da língua francesa, Thresor de la langue françoyse tant ancienne que moderne. Mas nele não estava “nicotina”. Ou melhor, “nicotine”. Irônico, não? Afinal, foi ele quem introduziu o tabaco na corte francesa. E as primeiras sementes que recebeu enviou para a sua amante, a rainha Albertina de Médicis, ou melhor, Albertine.

Tiveram um bastardo, o químico de Lassone, primeiro a produzir monóxido de carbono em laboratório. Convertido ao islamismo, xkjhasjkdhaskdjashdkjashda

DOS MEUS CADERNOS DE ESTÉTICA

Não existe essa de se identificar com o livro ou seja lá o que for. Quando falam isso pra mim imagino logo um maneta, duplamente maneteado, batendo palmas pra Vênus de Milo.

QUEM FOI O BARATA RIBEIRO?

Figueiredo Magalhães, antes de começar na avenida Atlântica e terminar na praça Vereador Rocha Leão, foi médico. Costumava recomendar aos seus pacientes o ar puro de Copacabana. Claro, antes disso ele já tinha comprado umas terras no areal de Copa. Tinha uma chácara-clínica na área e para facilitar o trânsito dos pacientes fundou uma linha de diligências até a Rua Figueiredo Magalhães.

Atravesso-a todos os dias. Em um deles uma mulher foi atropelada por um motoboy. Ansioso, gosto de apostar comigo mesmo quantos carros passarão antes que o sinal feche novavemente. Pode testar, entre o verde e o vermelho passam em média 80 veículos, entre carros, caminhões, ônibus, motoboys e outras armas de atropelamento em fúria. Speed Stream, como o nome do meu modem. Um publicitário propõs este mesmo nome para o produto que viria a se chamar Sempre Livre. Hoje este publicitário é poeta e mora em uma quitinete na rua que na época do médico Figueiredo Magalhães viria a se chamar Figueiredo Magalhães.

Fama, quero gozá-la póstuma e pedestre, calcado diariamente, travessa Marcelo Rota. A imoralidade do Figueiredo Magalhães não foi ter especulado com os areais de Copacabana, mas, por conta disso, ter ficado rico e famoso ainda em vida. Quando se sabe que a ética da celebridade é a da necrofilia, uma autonecrofilia, se quisermos ser mais precisos. Um cadáver onanista, se quisermos ser ainda mais. Só pode gozar depois de morto, se quiser explicação adicional.

SDLFSFLSDFLSDFSDL

No caminho para a bienal, no ônibus cheio, uma mulher lia Foucault em pé. E ainda sublinhava e compunha uma marginália. Stupid tricks.

AH, MAS HÁ UMAS PALAVRAS

que mereceriam uma escavação arqueológica (quase escrevi “resgatadas”, mas essa é outra para o Index). Elas então seriam reinseridas violentamente na boca banguela do povo.

Por exemplo, “Bossa” e “Escafandro” no sentido em que ocorrem em letras do Noel Rosa.

Cantarolando – Perguntei ao escafandro se a alma do malandro era tão profunda quanto o oceano.

id. – Não há quem possa me fazer perder a bossa da saudade do meu barracão.

“Saloia” também é bacana. Junto com “gaiato” e “algibeira”. E ainda com “com fumaças de” seria o ideal.

Orestes, com fumaças de gaiato, ao ver Virgínia, moça saloia e bonitona, sacou da algibeira a caixinha de rapé. Deu um espirro e aproximou-se.

Sim, um mundo sem dicotomias e a irreverência da galera do Casseta e Planeta, mas com morenas saloias, muito rapé e algibeira e onde as pessoas na hora da ofensa proferissem:

“Grandessíssimo!”

(sem o dizer o resto) é o mundo que proponho com meu fiat.

Um fiat que não é o do Gênesis, nem o lux com 40 fósforos, nem o pálio, porque não tenho carro. Entretanto, vi que tudo isso seria bom.

E nem vou dizer que gosto daquela música do Dorival Caymmi na qual ele pede que “a moreninha da sandália de pompom grená” requebre. Porque, se ela requebrar, ganhará um doce.

Read the rest of this entry »