é a coprofagia.
às vezes hesito antes de soltar posts aqui. Gostaria de poder testá-los em camundongos.
Aliás, o mundo perfeito é o que é ensaiado durante a eternidade por cientistas demiurgos com ratinhos imortais. E cuja estréia é perpetuamente procrastinada.
O discurso de Ivan Petrovich Pavlov, em Estocolmo, a 12 de dezembro de 1904, para a ocasião do recebimento do Nobel de Medicina, é bonito. É, como diria o crítico babaca a descrever o quarto movimento da Nona de Beethoven, um hino de louvor à vida. Pois a melhor maneira de louvá-la é dirigindo os elogios ao cocô.
Não é por mero acaso que todos os fenômenos da vida humana são dominados pelo pão nosso de cada dia – o mais antigo elo de ligação de todas as coisas vivas, incluindo o homem, com a natureza circundante. O alimento, que acha seu caminho, no qual sofre certas modificações – dissocia-se, entra em novas combinações, e novamente se dissocia – corporifica o processo vital, em toda a plenitude, desde as propriedades físicas elementares do organismo, tais como a lei da gravidade, a inércia, etc., às mais altas manifestações da natureza humana. A verdadeira metafísica é a do cocô, conhecer o que acontece com o alimento, desde a fulgurante chegada até sua esplendorosa saída, deve ser o objeto da ciência do futuro. É na escatologia que encontraremos a arqué.
Estava pensando em escrever resenhas sobre livros que não li porque não gostei das resenhas elogiosas que li sobre eles. Vocês acham que seria muita canalhice? Que seria, eu sei, pergunto se seria muita. Adianto que, sendo ou não, não é desprovido de critérios científicos que me lanço na empresa, pois tenho esta tese, ainda a defender, que resenhas positivas ruins são o retrato da peça resenhada.
Estou com blogueio. Tenho escrito de tudo nos mais diversos meios: listas de discussão, fóruns, emails, recados telefônicos, bilhetes eróticos, mas quando chego aqui no quadrado de publicação do MovableType, o único assunto que me vêm à mente é o da falta de, desesperado clichê de cronistas remunerados. É apenas porque sou gratuito que me permito o lugar-comum.
alksdjhaskjdhaskdjhasdkjahdkajsh
Vão se fuder vocês que evitam os clichês, que sempre tentam achar para o substantivo um adjetivo jamais usado para qualificá-lo, compor metáforas inusitadas, formular frases fresquinhas e descobrir temas insólitos (ou comuns contados de uma perspectiva in-).
[suspiro]
Agora, mais calmo, continuo: até falar que sob o sol nada há que já não tenha havido é tão velho quanto pessimistas citando o Eclesiastes.
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Certa vez, durante longa viagem de carro, inquieto com o tédio, interrompi o silêncio reinante (olha que clichê bonito) para pedir para contar uma estória. Esta: “Esta é uma estória chata e repetitiva, era uma vez uma história chata e repetitiva, chata e muito repetitiva, era tão chata e tão repetitiva…” E as pessoas riram.
De repente o parágrafo anterior pareceu-me ser um daqueles que pedem uma conclusão.
Certa vez, durante longa viagem de carro, inquieto com o tédio, interrompi o silêncio reinante (olha que clichê bonito) para pedir para contar uma estória. Esta: “Esta é uma estória chata e repetitiva, era uma vez uma história chata e repetitiva, chata e muito repetitiva, era tão chata e tão repetitiva…” E as pessoas riram. A diferença entre a vida e a minha estória está em que só esta tem graça.
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Mas talvez não. A vida é uma piada cuja punch line é a pá de cal que jogam sobre as nossas cabeças. A graça está em os espectadores da solenidade não rirem porque sabem que serão os próximos. Quem sabe que será o próximo não ri por último.
“Ok, ok, mas agora seja otimista!”
Tá: o pessimista fica otimista sempre que lembra que um dia isso tudo vai acabar; o otimista fica pessimista pela mesma razão.
Às vezes sente-se dissolvido na humanidade, ou no Projeto Humanidade, e então vai bem além de suas limitações como indivíduo, dos seus cinquenta anos, mais uns trinta que ele estima ainda ter pela frente, das pequenas coisas que já fez, das outras ainda menores que talvez possa realizar no que resta. Nestes momentos sente-se, no mesmo sentido em que o formigueiro é uma formiga gigante, como O Grande Indivíduo, nascido há dois milhões e quinhentos mil anos nas savanas africanas.
“Olha só o que me tornei!”, diz diante do rosto no espelho. E lembra da savana, da Grande Era Glacial, das migrações, dos Pirineus… “Eu sou muito foda. What a piece of work is man!”
“Olha só o que me tornei!”, diz de novo, depois de se lembrar, triste, que desde os quarenta que o seu esperma não vinha mais na mesma quantidade e consistência de antes, aos vinte, quando ainda não existiam computadores, ele ainda não havia casado e não tinha amantes, como a que deixou na cama para ir ao banheiro. “And yet, to me, what is this quintessence of dust?”

Título alternativo: “Não me enterrem em um campo de golfe.“
eu gosto do futebol, de vencê-lo, de Borges, de Piazzolla e da múmia de Evita Perón.
Tenho tido dificuldades de ler o que escrevo desde a mudança de layout. Dificuldades óticas, claro, as de interpretação sempre existiram. A resolução aqui é de 1024 X 768. Caso tenham conseguido ler este, peço feedback.
Tenho o hábito das previsões de humor. Assim ó: todos os domingos eu escrevo em fichas, que tenho preparadas para este fim, as predições dos dias da semana. É uma técnica de disciplina mental difícil e importante. Com o passar do tempo, você acaba… não “acertando”, esta não é a palavra correta, mas cumprindo tudo o que prevê. Faço isso desde os vinte anos e, só para exemplificar, há cinco, no dia em que meu pai morreu, uma quinta-feira, a ficha marcava “alegria e extroversão”. Minha irmã, desde então, nunca mais falou comigo.