“Amo as anfractuosidades da tua bcetah”

Mas quando lembro da bcetah dela
percebo que era mais rica do que isso:

“Amo as doces anfractuosidades da tua bcetah juvenil.”

Gostei quando você disse que ia se suicidar
pendurada no lustre do seu quarto de paredes cor-de-rosa.
Por mim.
Fiquei feliz e orgulhoso.

A mulher de Schoenberg fugiu com o pintor que dava aulas para ele.
Alguns meses depois ela se arrependeu e voltou para o marido.
O pintor então enforcou-se nu diante de um espelho.
Assim que eu te imagino:
o reflexo do seu cadáver pelado balançando.

Não sei se você se depilaria antes. Acho que sim.
Digo isso porque você me contou ter se depilado
antes de sair para me encontrar, decidida a terminar para sempre comigo.
Terminou mesmo.

E no último dia em que te vi não quis ver a tua bcetah.
Terminou comigo e ofereceu como despedida.
Recusei com raiva.
Hoje em dia me arrependo também com raiva.

As mulheres:
A de Schoenberg abandonou o marido por causa do pintor.
Depois voltou.
Você uma vez quis se suicidar por mim.
Da maneira mais ridícula e séria.

Mas você não se matou e meses depois mudou de idéia:
a respeito daquele por quem meses antes queria se matar.
Ah, como eu queria que você tivesse se matado!
Teria dito: “Por quê? Por quê!”
E hoje a minha vida seria melhor.

O-amante-da-mulher-de-Schoenberg
ficou feliz e orgulhoso quando ela
decidiu trocar o marido por ele.
Como eu quando você ameaçou se matar.
Depois, como você, ela mudou de idéia e voltou para casa.
E ele se matou do modo mais ridículo.

Coco & Igor

Chanel & Stravinsky seria um título melhor para este filme ruim sobre o qual não vou falar aqui e que jamais verei. Vi apenas o trailer: o bastante para tirar minhas conclusões, ainda que excessivo para  a minha economia do tempo, mesmo para mim, tão pródigo com ele. Só não me deixem encerrar antes de dizer que nem assim o título estaria bem. Por justiça o nome do compositor deveria vir a frente, pela importância maior, infinitamente maior, que teve sobre a cultura. Mas, por gentlemanship e condescendência, podemos pensar em deixar a prioridade a Coco.

O meu assunto é totalmente outro. Só queria mesmo registrar o meu encanto com a fofura e doçura de Kafka:

Sinto-me melhor depois de ler Strindberg. Não o leio só por ler mas para me aninhar no seu peito. Ele me leva ao colo como uma criança. Estou sentado em seu braço esquerdo como um homem numa estátua. Por dez vezes corro o perigo de cair, mas na décima primeira tentativa consigo manter o equilíbrio. Sinto-me seguro e tenho diante de mim uma grande perpectiva.

Strindberg, o melhor cabelo do cânone ocidental

Nunca ninguém fez um elogio tão sincero, preciso, panda e coala. Strindberg merece cada palavra do parágrafo. Mas talvez este seja ainda mais representativo do autor do que do destinatário. Eu mesmo o leio e sinto o impulso de trazer aquela linda cabecinha kafkiana para junto do meu tórax hirsuto e dizer-lhe: “Calma, tá tudo bem agora: mesmo que o mundo, assustador, seja o único lugar onde possamos existir, e mesmo que a realidade seja melhor entendida pelo paranóico do que pelo tranquilo, tá tudo bem agora. Mesmo que não esteja.” Entre parêntesis, tenho um amigo que é a cara de Kafka, cara que é a emergência do mesmo espírito que a anima e desenha do fundo. Vocês sabem quem é, nao sabem? Pois é ele mesmo: _______. É orelhudo como mil judeus de Praga autores de O Castelo, e tem, no mínimo, o mesmo número de olhos despreparados para qualquer pragmatismo e espertos de tanta perplexidade. E é verdade, não dá para entender absolutamente nada do que está diante de nós, o que cansa e anula toda a iniciativa e todo o pragmatismo que a inteligência gostaria de mobilizar.

O charme infantil do judeu orelhudo

De todas as pessoas charmosas que morreram, Kafka é a que possui mais charme infantil. Por isso que dá vontade de abraçar todos os seus livros, todas as edições em todas as línguas, aqueles livros órfãos. Franz Kafka é tão inseguro e frágil que até supondo que observasse do Invisível sua própria reputação póstuma, inclusive eu mesmo digitando este texto em tempo real, caractere por caractere, como se estivéssemos no google wave, rebaixaria seus admiradores, junto com as circunstâncias históricas que os produziram, para desqualificar a reverência que o adotou e, assim, manter a suspeita de si mesmo. E teria razão, porque o mundo que exalta alguém como ele não deveria jamais ter começado a existir. Ninguém costuma pensar assim, porém é óbvio que o que justifica e fundamenta a admiração por um artista, o que determina a sua qualidade estética e, enfim, o que o torna um gênio é também a própria realidade. É evidente que a realidade que aí está e onde estamos, além da qual não podemos escapar, é horrível, é miserável, é absurda, é uma dor infinita e uma violência ininterrupta contra o cérebro.

Porque, se não fosse assim, seria impossível justificar nossas preferências estéticas, a admiração que guardamos para pessoas como Kafka. Há algum tipo de relação, talvez especular talvez dialética, entre suas obras e o mundo que elas, muito contro voglia e amargamente, descrevem. Mas poderia ser pior,

"A Bundinha e a Luz: uma fábula"

poderia ser que tudo fosse como um livro ruim, poderia ser como O Alquimista, como Notas de um Velho Safado, como O Diabo Veste Prada, como Teletubbies, como A Crítica da Razão Pura, como Iracema, como O Senhor dos Anéis como o novo livro do Saramago, como O Capital, como A Praça é Nossa, como A Hora da Estrela, e então Kafka seria um autor menor. Porque a realidade bonita e inexistente, aquela que utopistas tentam construir, é a que se relaciona com os maus livros, é o sonho pusilânime de talentos menores. Por isso que acho muito bom que as coisas sejam horríveis, que sejam essa tortura feita de cócegas, kafka, dor, alívio, strindberg, buceta e pepsi twist light. E não essa tolice feita de amor, clarice, choro, beleza, saramago, buceta e pepsi twist light.

Kafka entendeu que o melhor mundo é esse mesmo e não um mundo melhor. Por isso que ele tem aquele olhar engraçado de órfão inteligente e filho triste. Tenho vontade de abraçá-lo com os mil braços de um avatar de Shiva. Ou de ser Strindberg para ele me chamar de “papá” e ver o mundo do meu cangote. E depois, por capricho e para vê-lo chorar, dar-lhe um tapa inesperado na cara como se estivéssemos em Dostoievski, ou um pedala bem dado só para vê-lo atordoado. Eu sei que ele iria gostar.

Bitzbutz by Gil Alkabetz (Israel, 1984)

TWITTER (ATÉ AGORA) DE @EMAILCIORAN

  1. gritar assusta os anjos.
  2. telefonar a alguém e, de medo ao escutar-lhe a voz, desligar na sua cara. assim são minhas relações. Um anacoreta tingido de sociabilidade.
  3. gosto de me contradizer até a demência. não é uma mania, mas uma fatalidade.
  4. não consigo me interessar por alguém a quem não pese nenhuma fatalidade. (minha paixão pelos Habsburgo).
  5. o medo de ser surpreendido pela desgraça. a artimanha imbecil de antecipá-la: fazendo-a, ao chegar, encontrar-me recostado sobre ela mesma.
  6. a necessidad cosmogônica da misoginia. pandora em hesíodo, eva no gênesis. a mulher explica o mal. depois viria a ingenuidade da teodicéia.
  7. o grande segredo de tudo: sentir-se o centro do mundo. e é exatamente isso que faz todo mundo.
  8. racine pedindo para ser enterrado em port-royal como “admirador estéril” dos solitários. bonita expressão, como “entusiasmo de eunuco”.
  9. salvo Villon e, talvez, Rimbaud, os poetas franceses são funcionários do verso.
  10. primeira condição para uma sociedade perfeita: poder matar quem se detesta.
  11. “Fulano acaba de ser golpeado por um êxito do qual não se recuperará nunca!” <——– o fracasso é superestimado, o sucesso sub-.
  12. as enfermidades existem para recordarmos que nosso contrato com a vida pode ser rescindido a qualquer momento.
  13. o universo onde deus existisse fora de qualquer duvida não precisaria de deus nem de nenhuma religião. (a necessidade do ‘deus absconditus’)
  14. a condição mínima para um livro ser bom: ultrapassar meu vocabulário.
  15. o ambicioso não se resigna à obscuridade a não ser depois de ter esgotado todas as possibilidades de amargura de que dispõe.
  16. quadro aí que vou pintar: uma mulher de costas e, no lugar das omoplatas, não asas de anjo, mas grandes orelhas.
  17. minhas inclinações estão mais para a loucura dos imperadores romanos do que para a sabedoria dos estóicos.
  18. o secreto regozijo que sentimos quando nos acreditamos abandonados pelos deuses.
  19. toda mulher faz papel de puta ou de governanta.
  20. desprezo todo mundo. mas aceito elogios.
  21. os que me consolam são como o médico que socorreu sêneca com o ventre rasgado. não tentem recolocar minhas tripas ou enforco-lhes com elas!
  22. Hesíodo, o camponês ressentido: origem da desprezível tradição que dignifica o trabalho. a fonte tanto das rev burguesas qto do marxismo.
  23. em suas horas vagas minha preguiça se ocupa em gritar madrigais renascentistas para a angústia, que, da sacada, lhe suspira com tédio.
  24. A Romênia é uma inveja do mediterrâneo.
  25. hoje numa estação do metrô 1 cego estendia sua mão havia em sua atitude algo que gelava que cortava a respiração sua cegueira nos contagiava
  26. o mais bonito dos grandes ambiciosos é que sempre acabam realizando o contrário do que pretendiam.
  27. A oposição fundamental de Shestov: Atenas X Jerusalém. Mas esqueceu de Paris, o único lugar onde é possível ser falso com sinceridade.
  28. todas as minhas idéias surgiram de coisas das quais deveria me envergonhar.
  29. a mobilidade típica do feminino vem de uma luta interior incessante: o desejo de ser penélope quando se é clitemnestra, ou o inverso.
  30. o refinamento é sinal de déficit de vitalidade. na arte, no amor, em tudo.
  31. quando ejaculo nos peitos de uma mulher me sinto um clown shakespeareano: meu sêmen, torrente de burla infinita, a man of infinite jest
  32. as revoluções e as guerras representam o espírito em marcha, quer dizer, o triunfo e não a degradação final do espírito.
  33. como macbeth tudo de que preciso é rezar. ao contrário de macbeth não posso dizer amém.
  34. as tetralogias gregas capturaram perfeitamente o ritmo do ser: 3 tragédias seguidas por uma sátira.
  35. não gosto dos livros escritos com frieza. mas os que parecem palpitar de calor me deixam com nojo.
  36. para encontrar a verdade: manter-se eqüidistante entre o entusiamo e a amargura.
  37. retirar-me para um cova. ser íntimo dos escorpiões. Fazer cigarros do seu veneno. Morrer fumando escorpiões na tumba do faraó.
  38. ser guarda de trânsito de necrópoles sempre foi a minha única vocação.
  39. que quem primeiro escreveu em prosa tenha sido heródoto, um historiador, constrange os ficcionistas até hoje.
  40. a mulher acumula as funções de puta e de governanta, e precisa de um homem que seja poeta no seu domus, mas cocheiro na alcova.
  41. ninguém é modesto com o próprio sofrimento.
  42. jacobinos, comuna de paris, maio de 68: desde Luís IX, o lambedor de leprosos, a França mantém uma relação abjeta com a pobreza.
  43. o q ha de belo no mundo é 1 fato do Direito, único desta ciência só de ficções: impossibilidade de afirmar a inocência p alem de qq duvida.
  44. os santos com φρόνησις. o absurdo que foi Luís IX: a alquimia do cetro e do cilício.
  45. o ruído mais intolerável é o que faz o ser humano quando fala. o meu artigo de 1938: “O Pecado da Voz Humana”.
  46. stalin, roosevelt e churchill vieram ao hotel onde moro depois da conferência de yalta. pediram-me desculpas por não terem me consultado.
  47. jacqueline kennedy me telefonou chorando depois do assassinato.
  48. felicidade e desejo de glória são incompatíveis. a felicidade, como diz aristóteles, pertence àqueles que se bastam a si mesmos.
  49. mais do que sofrer, a promoção e dramatização do próprio sofrimento é o caminho mais curto para a glória.
  50. o choro das mulheres como retórica da destruição. Lady Macbeth chora as punhaladas que, então, o marido transfere para Duncan.
  51. a minha dúvida perpétua entre ser hamlet e ser falstaff é mais autêntica do que a do próprio hamlet.
  52. assim como outros têm um pé na cova, eu estou sempre com um pé no paraíso.
  53. por que quando rezo junto a uma flor ela murcha?
  54. predileções de catástrofe: uma pena os naufrágios serem cada vez mais raros.
  55. peitos caídos como constantinoplas, beijos como o báltico, um cuzinho como o canal de suez: eu e história na rue saint-denis…
  56. e pensar que cheguei a roçar a santidade
  57. tenho 1 coragem negativa, valentia q dirigi contra mim mesmo. orientei minha vida p/ fora do sentido q havia me prescrito. anulei meu futuro
  58. alterno entre me sentir um tirano desempregado e um vagabundo remunerado.
  59. a volúpia do inacabado, o tédio da perfeição. quero chorar no meio da rua. tenho o demônio das lágrimas. o tédio da perfeição, a volúpia do
  60. hoje sonhei com a putrefação de papá e mamã. e acordei pensando na minha própria.
  61. Foi fora da Europa que a civilização ocidental mostrou sua verdadeira face pela primeira vez: a de Hernán Cortés em Tenochtitlan, 1521.
  62. ser o don quixote da alcova…
  63. o homossexualismo é a preguiça da mulher. o hetero- é a misoginia e, mesmo assim, querer aventurar-se na selva moral que é a mulher.
  64. quem mais entendeu a mulher foi quem mais sucumbiu a ela: strindberg, o grande bucetólogo do ocidente.
  65. Acabo de levantar a pálpebra esquerda de Deus.
  66. meu amigo A., sabotado pela imaginação, perseguido pela realidade.
  67. criatura essencialmente uivante, minhas idéias ladram: não explicam nada, só estalam, arrulham, trepidam, estouram e morrem.
  68. o berço da civilização é a índia. a grécia é seu leito de procusto.
  69. se observasse meu humor como tycho brahe fazia com o céu, a falta de regularidade me faria dar um tiro no zodíaco e, assim, morrer.
  70. Pascal: a razão tem desejos dos quais se envergonha.
  71. para que nasça um cético é necessário que mil crentes destruam a ordem.
  72. diante de cada insulto oscilamos entre a bofetada e o tiro na cara, e esta hesitação consagra nossa covardia.
  73. minha poluções noturnas são todas com santa teresa de ávila…
  74. desde os 13 anos acordo todos os dias como uma puta que envelheceu.
  75. o deus do jardim do éden é um deus rural. a posição da agricultura na história da civilização explica a rusticidade dos deuses.
  76. a religião me ensinou a ter nojo de umbigos.
  77. no desmaio feminino há uma expressão de voluptuosidade. nas mulheres o prazer é um desfalecimento, uma forma de desintegração.
  78. quartier latin: mulher senta ao meu lado e diz ser feminista. quer opinião. pergunto se isso a impede de dar a bunda, pq, se ñ, ñ tem prob.
  79. para ser escritor não é suficiente ter talento: é preciso também não esquecer nada. o escritor supremo é homem de rancores.
  80. a única vantagem da velhice é termos nos tornado hábeis em camuflar nossos vícios e vergonhas. daí a colostomia ser a tragédia suprema.
  81. “celulite não mede o caráter de ninguém” – preta gil
  82. gautier dizia do túmulo: um vestiário onde a alma depõe suas roupas ao sair do teatro. mas só está certa a parte do teatro.
  83. chateaubriand viu na lua se erguendo atrás do vértice da pirâmide de keóps o próprio farol da morte. eu veria o olho ciclópico de deus.
  84. meu único sonho de milionário é póstumo: 13 atrizes de Malhação segurando o meu esquife. Carpideiras gostosas de xoxortinho…
  85. gosto de observar a pátina do tempo nos túmulos em art noveau de miami beach.
  86. uma mosca morde o homem/disso vira uma ferida/da ferida o homem morre/a mosca tirou-lhe a vida <—— poema da minha faxineira
  87. Vieira sobre a diferença entre os vivos e os mortos: os vivos são pó que fala, os mortos são pó que jaz.(Ah, aquela campanha: gente que jaz)
  88. todo pensamento que não esconde uma aspereza me aborrece.
  89. a pederastia é marcial: aquiles uivando sobre o cadáver de pátroclo, napoleão junto ao corpo do marechal lannes em Erling.
  90. a morte: incompreensível e escandaloso perder o pensamento no nada.
  91. empédocles jogou-se na boca do etna para se provar imortal e o vulcão devolveu suas sandálias de bronze. uma ironia grosseira da natureza.
  92. bêbados os casais todos, noica com a mão na coxa da minha mulher. alguém propôs sexo grupal. mircea eliade corrigiu: “hierogamia coletiva!”
  93. confúcio, filósofo da burocracia da dinastia han, é, na aplicação de suas doutrinas à Administração, o que seria marx para a urss e a rpc.
  94. nagarjuna, bartleby de melville tornado iogue.
  95. conceitografia: ren, tao, dasein, tchan e créu.
  96. versão humilde da torre de babel: um zigurate de altura suficiente apenas para que Ele ouça a minha serenata. <— deus como julieta
  97. proust, como noé, sofria da síndrome da arca, que é não querer sair de lá depois da água ter baixado. a arca de proust era o colo da mãe.
  98. é comum q meninos mimados transformem o excesso de amor em ímpeto estético/liderança civilizatória: proust, sidarta gautama e dado dolabella
  99. qq posição política é uma impostura formada de humilhações e golpes anteriores sofridos pelo psiquismo. uma manifestação de inferioridade.
  100. o que me atrai no budismo: a glorificação do vazio (sunyata). ao mesmo tempo me afasta seu horror ao sofrimento (dukkha). sou um pós-buda.
  101. o que atrai no cristianismo: o amor ao sofrimento. e me afasta a adoração pelo além-mundo. sou um para-cristão.
  102. imagino meu nascimento na contingência das linhagens malditas das genealogias bíblicas, como a de Ló. Eu, um moabita moderno e balcânico.
  103. o que me atrai nas mulheres é a mesma coisa que me afasta e que eu não sei o que é mas que me faz persegui-las do mesmo jeito!
  104. tossir é minha única paixão.
  105. minha mãe cozinhava muito mal. só suas batatas cozidas eram elogiadas. eu sempre detestei batatas cozidas.
  106. por que quando me elogiam me sinto como uma moça a quem tivessem dito uma indecência? e por que não reajo, como a donzela, com a bofetada?

CABRITINHA DOCE EM UM ESPETO DE CEREJEIRA

Muito triste ver Anna Karina em Pierrot Le fou e depois encontrá-la de novo, envelhecida, nos extras do dvd em uma entrevista atual, em que ela faz um memorialismo das filmagens. Diz que, então, era parecida com sua personagem no filme: “Eu era mesmo essa menina feliz e inconsequente, que gostava de correr aos pulinhos e cantar”. E acrescento: uma cabritinha vaporosa e doce, uma fadinha ou sílfide inquieta, que o espectador sente ganas de colocar num espeto de cerejeira, assar e mastigar com uma fome primitiva e alegre.

Daí o adágio: “Toda mulher linda é mãe de uma bruxa.”

A sombra de Natalia Vodianova se confunde com a do pombo que ela persegue com o filho no colo pelas areias de Ipanema. Alguém de α Centauri que conseguisse essa foto capturando nacos de sinais de nossos satélites não entenderia nada.

A sombra de Natalia Vodianova se confunde com a do pombo que ela perseguecom o filho no colo pelas areias de Ipanema. Alguém de α Centauri que conseguisse essa foto capturando nacos de sinais de nossos satélites não entenderia nada.

MONÓLOGO COM CARMEN (SÃO PAULO S. A.)

[18:20:56] carmen says:fox!!!!
[18:30:21] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
oi carmencita!!!
[18:30:50] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
que bom que ce apareceu e interrompeu o meu filme, que eu tava gostando muito, mas, olha só: gosto mais ainda de você!
[18:31:04] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
putz, offline. maldito filme.
[18:32:09] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
eu tava vendo São Paulo Sociedade Anônima. Eram 30 minutos e 11 segundos de filme quando escrevi “Oi carmencita!!!”.
[18:33:26] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
eu tinha dado um pause só porque senti necessidade de escrever em algum lugar essa frase ouvida durante: “Hilda está morta. E eu nem pude dizer nada para ela.”
[18:33:54] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
Frase, apesar de sobre uma mulher morta, banal, mas no filme ela ficou linda.

***

Na praia de Ipanema, a top brinca com um dos seus três filhos, o fofissimo Victor de um ano

Na praia de Ipanema, a top brinca com um dos seus três filhos, o fofíssimo Victor de um ano

Hilda é, como todas as mulheres que prestam no mundo, bergmaniana. Eu já falei em algum lugar que para fazer uma metafísica você tem que usar o método metonímico ou mereológico. Porque, se você quer explicar tudo e dar um sentido geral às coisas, não pode fazer como o turista, que ao invés de se guiar em Paris pelo mapa da cidade, preferiu a própria cidade, por ser, segundo ele, mais real e precisa do que qualquer cartografia. No caso da metafísica o mapa tem que ser um pedaço da realidade bem especial, um que, na sua parcialidade e abstração, consiga repercutir todo o resto. O Bergman escolheu a mulher, e escolheu muito bem. Outros escolheram outras coisas. É possível: a realidade, por sorte, possui essa propriedade de dispersão especular que faz com que as mais diversas coisas possam refleti-la e resumi-la. Por exemplo, o fantástico Jean Henri Fabre, entomologista, escolheu para a sua metafísica as lagartas processionárias. Mas voltemos para as mulheres: o desgraçado que entende a mulher nos golfões mais abscônditos daquela radiografia complicadíssima, cheia de bifurcações, em cada esquina um teratoma úmido e hipnótico, tem toda a ciência de que o mundo precisaria, se ele precisasse de tanta ciência assim.

Mas a Hilda está morta e nem tivemos tempo de entendê-la. Ela gostava de cheirar lança-perfume nos bailes de carnaval do Brasil kubitschekiano, tinha amantes de todos os tipos (um deles, Carlos, o protagonista do filme, engenheiro da Volkswagen) e fazia comentários espertos sobre Segall e Picasso andando distraída pelo MASP. Em uma cena, brincando na praia de Guarujá com o Carlos, de repente pára de sorrir, faz o sinal da cruz, há um corte para o rosto perplexo do namoradinho que, engenheiro da Volkswagen, jamais a entenderia mesmo, e depois voltamos para Hilda, que refaz o sorriso e a disposição alegre tão rapida e inexplicamente como antes tinha perdido. Aproveito para dizer que os homens somos todos rasos, como se fossemos todos engenheiros, desenhistas industriais da Volks, da Ford ou da Fiat. As mulheres, não, todas medusóides, mesmo as mais bonitas como Hilda, Anna Karina e Natalia Vodianova, principalmente a Natalia, que até ontem estava aqui no Rio com o marido careca e seus três filhos lindos (v. foto). As mulheres são profundas, e são capazes de momentos como o da Hilda na praia do Guarujá, quando parece que vemos passar sobre seus olhos a sombra da asa de morcego invisível, anjo mal ou outro ser diabólico. Então elas se benzem e voltam a correr e a sorrir. Os homens, atônitos, olhamos para as pegadas de Maldade e Mistério que deixam na areia.

As belas omoplatas de Hilda e, no segundo plano, Carlos, o engenheiro, abre as cortinas da janela que dá para a praia do Guarujá. O apartamento pertence a um outro amante de Hilda, naquele momento em viagem de negócios nos EUA. Carlos usa o seu pijama.

As belas omoplatas de Hilda e, no segundo plano, Carlos, o engenheiro, acabou de abrir as cortinas da janela que dá para a praia do Guarujá. O apartamento pertence a um outro amante de Hilda, naquele momento em viagem de negócios nos EUA. Carlos usa o seu pijama.

Exercitatio philosophica de morte voluntaria philosophorum et bonorum virorum, etiam judaeorum et christianorum

Jean Robeck, Swede, born in 1672, after having made his last arrangements and left to one of his friends the sum required to print a manuscript, disappeared, going to bury himself in an unknown retreat, then nine years later boarded a boat at Bremen, and threw himself in the Weser, in 1739. Professor Franck, following the wish of Robeck, published his work, which was nothing more than an apology for suicide, but added notes, refuting it: ‘Joh. Robeck Exercitatio philosophica de morte voluntaria philosophorum et bonorum virorum, etiam judaeorum et christianorum‘; 1736.” [The note does not explain why the publication date precedes his death.]

Acrescento que Jean Robeck foi um missionário jesuíta. E mais do que isso não sei sobre ele. A não ser que  não está presente na Wikipedia e que foi salvo do esquecimento por  este breve relato do barão Friedrich Melchior von Grimm, este sim verbete da Wikipedia.

O barão escreveu sobre tudo e todos na sua correspondência, a princípio sigilosa e só publicada postumamente, em 16 volumes.  Um bávaro morando em Paris, seus destinatários eram sobretudo membros da nobreza do norte da Europa. Escrevia a fim de informá-los sobre o que acontecia na capital onde tudo acontecia. Era como uma newsletter ou um fanzine por email, que contava entre seus assinantes a rainha Catarina II da Rússia e Stanislas Poniatowski, soberano da Polônia, além de vários príncipes germânicos.

Mas por que estou escrevendo sobre o barão? Na verdade quem me interessa é Jean Rodeck, que não interessou a ninguém fora o barão, e mesmo assim só durante os instantes de algumas cinco linhas de uma obra de 16 volumes, mas que bastou para atrair a minha atenção — horizontal, inquieta, dispersa nas superficialidades de um mundo sobre-instruído. Onde está o livro de Jean Robeck, onde encontro a sua apologia ao suicídio? Ok, não é nem Robeck que me interessa, tampouco o seu livro. É, primeiro, a graça e o pitoresco de, depois de tê-lo escrito, convencido pelo próprios argumentos, realizar o corolário prático destes.  Morreu, imagino, julgando-se mártir da própria coerência. Depois, a ironia final de, post-mortem e tarde demais para contestar, ser refutado em notas de rodapé ao seu texto acrescidas pelo editor, o amigo a quem confiou a publicação da obra de sua vida. É como se tivesse morrido duas vezes: primeiro pelas próprias mãos e depois pelas do amigo.

AVISO DESNECESSÁRIO E RITUAL ESCUSATÓRIO

Já que não tenho me entendido muito bem com o outro projeto, que não sei como continuar, e que talvez, se conseguir levá-lo adiante, seja transferido para a discrição confortável e offline do editor de textos, no caso, o Lyx, retomo o exercício de escrever sobre a morte. Antes ainda repito aqui a modéstia irônica, acho que do Antero de Quental, de dizer que não espera dos leitores elogios, mas só a sua misericórdia. Mas não a do Padre Vieira, que, no início dos seus sermões, dizia não esperar e pedir a atenção dos ouvintes, mas só a sua paciência. Eu nem isso peço.

Entretanto, a situação é ainda mais grave. Como ando pouco sistemático e a atenção, inquieta, sempre escapa para objetos diferentes daquele em que desejaria concentrá-la, vou dispersar nos próximos posts umas notas vagas com comentários velozes sobre citações recolhidas a respeito do suicídio, um tema que, quem sabe, com a ajuda de fármacons para TDA e outros transtornos, atacarei de maneira mais consistente em um texto com princípio, meio e fim, ainda que não necessariamente nessa ordem. E espero que tenham lido isto com a mesma suspeita com que o escrevi.

É tudo um pouco como aquele diálogo que não está no Hamleto:

– Você está com dúvidas, né?

– Talvez…

– Tenho certeza que você está…

– Não sei!!

012 Continuação do Interrompido: IV. Bulbo Raquidiano

Se cortarmos a cabeça de alguém com uma foice soviética ou um alfanje otomano, depois, quando a erguemos de modo triunfal pelos cabelos, talvez, dependendo do ponto de corte e de algumas outras variáveis, como o penteado do indivíduo, talvez possamos ver na parte de trás e abaixo, insinuando-se grotescamente como um resto de trança, um piruzinho japonês: é o bulbo raquidiano. Não tenho certeza disso mas, quem sabe, poderíamos, segurando cada uma das orelhas, com um movimento brusco e seco colocar a cabeça para girar sobre o patíbulo apoiada no bulbo. Ao redor, na praça, a malta aplaude o truque. Somos o verdugo mais popular e querido da França revolucionária!

Se quisermos executar um judeu de maneira bondosa depois de tê-lo feito cavar, junto a seus companheiros, a enorme cova coletiva, temos que mirar na medula oblonga (outro nome para o bulbo). A morte é tão instantânea como a escuridão ao apagarmos a luz do quarto para dormir, com a consciência tranquila de um carrasco na França revolucionária ou de um oficial alemão durante a segunda guerra.