Bitzbutz by Gil Alkabetz (Israel, 1984)


Muito triste ver Anna Karina em Pierrot Le fou e depois encontrá-la de novo, envelhecida, nos extras do dvd em uma entrevista atual, em que ela faz um memorialismo das filmagens. Diz que, então, era parecida com sua personagem no filme: “Eu era mesmo essa menina feliz e inconsequente, que gostava de correr aos pulinhos e cantar”. E acrescento: uma cabritinha vaporosa e doce, uma fadinha ou sílfide inquieta, que o espectador sente ganas de colocar num espeto de cerejeira, assar e mastigar com uma fome primitiva e alegre.
Daí o adágio: “Toda mulher linda é mãe de uma bruxa.”
[18:20:56] carmen says:fox!!!!
[18:30:21] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
oi carmencita!!!
[18:30:50] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
que bom que ce apareceu e interrompeu o meu filme, que eu tava gostando muito, mas, olha só: gosto mais ainda de você!
[18:31:04] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
putz, offline. maldito filme.
[18:32:09] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
eu tava vendo São Paulo Sociedade Anônima. Eram 30 minutos e 11 segundos de filme quando escrevi “Oi carmencita!!!”.
[18:33:26] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
eu tinha dado um pause só porque senti necessidade de escrever em algum lugar essa frase ouvida durante: “Hilda está morta. E eu nem pude dizer nada para ela.”
[18:33:54] I Successi di Toninho Gilgamesh says:
Frase, apesar de sobre uma mulher morta, banal, mas no filme ela ficou linda.
***
Hilda é, como todas as mulheres que prestam no mundo, bergmaniana. Eu já falei em algum lugar que para fazer uma metafísica você tem que usar o método metonímico ou mereológico. Porque, se você quer explicar tudo e dar um sentido geral às coisas, não pode fazer como o turista, que ao invés de se guiar em Paris pelo mapa da cidade, preferiu a própria cidade, por ser, segundo ele, mais real e precisa do que qualquer cartografia. No caso da metafísica o mapa tem que ser um pedaço da realidade bem especial, um que, na sua parcialidade e abstração, consiga repercutir todo o resto. O Bergman escolheu a mulher, e escolheu muito bem. Outros escolheram outras coisas. É possível: a realidade, por sorte, possui essa propriedade de dispersão especular que faz com que as mais diversas coisas possam refleti-la e resumi-la. Por exemplo, o fantástico Jean Henri Fabre, entomologista, escolheu para a sua metafísica as lagartas processionárias. Mas voltemos para as mulheres: o desgraçado que entende a mulher nos golfões mais abscônditos daquela radiografia complicadíssima, cheia de bifurcações, em cada esquina um teratoma úmido e hipnótico, tem toda a ciência de que o mundo precisaria, se ele precisasse de tanta ciência assim.
Mas a Hilda está morta e nem tivemos tempo de entendê-la. Ela gostava de cheirar lança-perfume nos bailes de carnaval do Brasil kubitschekiano, tinha amantes de todos os tipos (um deles, Carlos, o protagonista do filme, engenheiro da Volkswagen) e fazia comentários espertos sobre Segall e Picasso andando distraída pelo MASP. Em uma cena, brincando na praia de Guarujá com o Carlos, de repente pára de sorrir, faz o sinal da cruz, há um corte para o rosto perplexo do namoradinho que, engenheiro da Volkswagen, jamais a entenderia mesmo, e depois voltamos para Hilda, que refaz o sorriso e a disposição alegre tão rapida e inexplicamente como antes tinha perdido. Aproveito para dizer que os homens somos todos rasos, como se fossemos todos engenheiros, desenhistas industriais da Volks, da Ford ou da Fiat. As mulheres, não, todas medusóides, mesmo as mais bonitas como Hilda, Anna Karina e Natalia Vodianova, principalmente a Natalia, que até ontem estava aqui no Rio com o marido careca e seus três filhos lindos (v. foto). As mulheres são profundas, e são capazes de momentos como o da Hilda na praia do Guarujá, quando parece que vemos passar sobre seus olhos a sombra da asa de morcego invisível, anjo mal ou outro ser diabólico. Então elas se benzem e voltam a correr e a sorrir. Os homens, atônitos, olhamos para as pegadas de Maldade e Mistério que deixam na areia.
Acrescento que Jean Robeck foi um missionário jesuíta. E mais do que isso não sei sobre ele. A não ser que não está presente na Wikipedia e que foi salvo do esquecimento por este breve relato do barão Friedrich Melchior von Grimm, este sim verbete da Wikipedia.
O barão escreveu sobre tudo e todos na sua correspondência, a princípio sigilosa e só publicada postumamente, em 16 volumes. Um bávaro morando em Paris, seus destinatários eram sobretudo membros da nobreza do norte da Europa. Escrevia a fim de informá-los sobre o que acontecia na capital onde tudo acontecia. Era como uma newsletter ou um fanzine por email, que contava entre seus assinantes a rainha Catarina II da Rússia e Stanislas Poniatowski, soberano da Polônia, além de vários príncipes germânicos.
Mas por que estou escrevendo sobre o barão? Na verdade quem me interessa é Jean Rodeck, que não interessou a ninguém fora o barão, e mesmo assim só durante os instantes de algumas cinco linhas de uma obra de 16 volumes, mas que bastou para atrair a minha atenção — horizontal, inquieta, dispersa nas superficialidades de um mundo sobre-instruído. Onde está o livro de Jean Robeck, onde encontro a sua apologia ao suicídio? Ok, não é nem Robeck que me interessa, tampouco o seu livro. É, primeiro, a graça e o pitoresco de, depois de tê-lo escrito, convencido pelo próprios argumentos, realizar o corolário prático destes. Morreu, imagino, julgando-se mártir da própria coerência. Depois, a ironia final de, post-mortem e tarde demais para contestar, ser refutado em notas de rodapé ao seu texto acrescidas pelo editor, o amigo a quem confiou a publicação da obra de sua vida. É como se tivesse morrido duas vezes: primeiro pelas próprias mãos e depois pelas do amigo.
Já que não tenho me entendido muito bem com o outro projeto, que não sei como continuar, e que talvez, se conseguir levá-lo adiante, seja transferido para a discrição confortável e offline do editor de textos, no caso, o Lyx, retomo o exercício de escrever sobre a morte. Antes ainda repito aqui a modéstia irônica, acho que do Antero de Quental, de dizer que não espera dos leitores elogios, mas só a sua misericórdia. Mas não a do Padre Vieira, que, no início dos seus sermões, dizia não esperar e pedir a atenção dos ouvintes, mas só a sua paciência. Eu nem isso peço.
Entretanto, a situação é ainda mais grave. Como ando pouco sistemático e a atenção, inquieta, sempre escapa para objetos diferentes daquele em que desejaria concentrá-la, vou dispersar nos próximos posts umas notas vagas com comentários velozes sobre citações recolhidas a respeito do suicídio, um tema que, quem sabe, com a ajuda de fármacons para TDA e outros transtornos, atacarei de maneira mais consistente em um texto com princípio, meio e fim, ainda que não necessariamente nessa ordem. E espero que tenham lido isto com a mesma suspeita com que o escrevi.
É tudo um pouco como aquele diálogo que não está no Hamleto:
– Você está com dúvidas, né?
– Talvez…
– Tenho certeza que você está…
– Não sei!!
Se cortarmos a cabeça de alguém com uma foice soviética ou um alfanje otomano, depois, quando a erguemos de modo triunfal pelos cabelos, talvez, dependendo do ponto de corte e de algumas outras variáveis, como o penteado do indivíduo, talvez possamos ver na parte de trás e abaixo, insinuando-se grotescamente como um resto de trança, um piruzinho japonês: é o bulbo raquidiano. Não tenho certeza disso mas, quem sabe, poderíamos, segurando cada uma das orelhas, com um movimento brusco e seco colocar a cabeça para girar sobre o patíbulo apoiada no bulbo. Ao redor, na praça, a malta aplaude o truque. Somos o verdugo mais popular e querido da França revolucionária!
Se quisermos executar um judeu de maneira bondosa depois de tê-lo feito cavar, junto a seus companheiros, a enorme cova coletiva, temos que mirar na medula oblonga (outro nome para o bulbo). A morte é tão instantânea como a escuridão ao apagarmos a luz do quarto para dormir, com a consciência tranquila de um carrasco na França revolucionária ou de um oficial alemão durante a segunda guerra.