Chanel & Stravinsky seria um título melhor para este filme ruim sobre o qual não vou falar aqui e que jamais verei. Vi apenas o trailer: o bastante para tirar minhas conclusões, ainda que excessivo para a minha economia do tempo, mesmo para mim, tão pródigo com ele. Só não me deixem encerrar antes de dizer que nem assim o título estaria bem. Por justiça o nome do compositor deveria vir a frente, pela importância maior, infinitamente maior, que teve sobre a cultura. Mas, por gentlemanship e condescendência, podemos pensar em deixar a prioridade a Coco.
O meu assunto é totalmente outro. Só queria mesmo registrar o meu encanto com a fofura e doçura de Kafka:
Sinto-me melhor depois de ler Strindberg. Não o leio só por ler mas para me aninhar no seu peito. Ele me leva ao colo como uma criança. Estou sentado em seu braço esquerdo como um homem numa estátua. Por dez vezes corro o perigo de cair, mas na décima primeira tentativa consigo manter o equilíbrio. Sinto-me seguro e tenho diante de mim uma grande perpectiva.
Strindberg, o melhor cabelo do cânone ocidental
Nunca ninguém fez um elogio tão sincero, preciso, panda e coala. Strindberg merece cada palavra do parágrafo. Mas talvez este seja ainda mais representativo do autor do que do destinatário. Eu mesmo o leio e sinto o impulso de trazer aquela linda cabecinha kafkiana para junto do meu tórax hirsuto e dizer-lhe: “Calma, tá tudo bem agora: mesmo que o mundo, assustador, seja o único lugar onde possamos existir, e mesmo que a realidade seja melhor entendida pelo paranóico do que pelo tranquilo, tá tudo bem agora. Mesmo que não esteja.” Entre parêntesis, tenho um amigo que é a cara de Kafka, cara que é a emergência do mesmo espírito que a anima e desenha do fundo. Vocês sabem quem é, nao sabem? Pois é ele mesmo: _______. É orelhudo como mil judeus de Praga autores de O Castelo, e tem, no mínimo, o mesmo número de olhos despreparados para qualquer pragmatismo e espertos de tanta perplexidade. E é verdade, não dá para entender absolutamente nada do que está diante de nós, o que cansa e anula toda a iniciativa e todo o pragmatismo que a inteligência gostaria de mobilizar.
O charme infantil do judeu orelhudo
De todas as pessoas charmosas que morreram, Kafka é a que possui mais charme infantil. Por isso que dá vontade de abraçar todos os seus livros, todas as edições em todas as línguas, aqueles livros órfãos. Franz Kafka é tão inseguro e frágil que até supondo que observasse do Invisível sua própria reputação póstuma, inclusive eu mesmo digitando este texto em tempo real, caractere por caractere, como se estivéssemos no google wave, rebaixaria seus admiradores, junto com as circunstâncias históricas que os produziram, para desqualificar a reverência que o adotou e, assim, manter a suspeita de si mesmo. E teria razão, porque o mundo que exalta alguém como ele não deveria jamais ter começado a existir. Ninguém costuma pensar assim, porém é óbvio que o que justifica e fundamenta a admiração por um artista, o que determina a sua qualidade estética e, enfim, o que o torna um gênio é também a própria realidade. É evidente que a realidade que aí está e onde estamos, além da qual não podemos escapar, é horrível, é miserável, é absurda, é uma dor infinita e uma violência ininterrupta contra o cérebro.
Porque, se não fosse assim, seria impossível justificar nossas preferências estéticas, a admiração que guardamos para pessoas como Kafka. Há algum tipo de relação, talvez especular talvez dialética, entre suas obras e o mundo que elas, muito contro voglia e amargamente, descrevem. Mas poderia ser pior,

"A Bundinha e a Luz: uma fábula"
poderia ser que tudo fosse como um livro ruim, poderia ser como O Alquimista, como Notas de um Velho Safado, como O Diabo Veste Prada, como Teletubbies, como A Crítica da Razão Pura, como Iracema, como O Senhor dos Anéis como o novo livro do Saramago, como O Capital, como A Praça é Nossa, como A Hora da Estrela, e então Kafka seria um autor menor. Porque a realidade bonita e inexistente, aquela que utopistas tentam construir, é a que se relaciona com os maus livros, é o sonho pusilânime de talentos menores. Por isso que acho muito bom que as coisas sejam horríveis, que sejam essa tortura feita de cócegas, kafka, dor, alívio, strindberg, buceta e pepsi twist light. E não essa tolice feita de amor, clarice, choro, beleza, saramago, buceta e pepsi twist light.
Kafka entendeu que o melhor mundo é esse mesmo e não um mundo melhor. Por isso que ele tem aquele olhar engraçado de órfão inteligente e filho triste. Tenho vontade de abraçá-lo com os mil braços de um avatar de Shiva. Ou de ser Strindberg para ele me chamar de “papá” e ver o mundo do meu cangote. E depois, por capricho e para vê-lo chorar, dar-lhe um tapa inesperado na cara como se estivéssemos em Dostoievski, ou um pedala bem dado só para vê-lo atordoado. Eu sei que ele iria gostar.






